Apresentação

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

O tema da maternidade sempre me interessou muito, pessoal e profissionalmente. Durante a maior parte da minha vida posso dizer que, de certa forma, me defini pelo futuro. Sempre me senti uma “futura mãe”, desde criança quando cuidava das várias bonecas-filhas. Seja por instinto, seja por adaptação às expectativas da sociedade, para mim a identificação com o papel materno era fácil, quase automática. Como profissão escolhi a psicologia, estudando e trabalhando principalmente com crianças ou famílias. Alguns anos atuando na área e eu achava que sabia de muitas coisas. Acumulei muitos conceitos e ideias em cursos e leituras, mas minha visão e mesmo minha escuta mudaram muito quando me tornei mãe. Foi o ponto de virada para começar a conhecer, de fato, uma realidade que até então era para mim um tanto teórica. Hoje percebo que muito do que a maioria das pessoas fala vem muito mais de repetições do que de pensamentos próprios. Incluo-me neste grupo, e quando enfim me tornei mãe percebi que tantos dos pensamentos que eu achava ter não se fundamentavam, eram baseados em reprodução dos dogmas que ouvi. Não se sustentavam, ou não eram tão universais quanto pensava. E me entristeço em ver que muitos profissionais seguem disseminando pensamentos que, muitas vezes, poderiam ser entendidos como preconceituosos. Que, em vez de ajudarem na função de subjetivizar as pessoas e relações acabam prestando desserviço ao ditar normas de convivência e criação. Que não transformam, não trabalham no sentido de promover consciência e autonomia, muito pelo contrário, massificam. Assim acontece, por exemplo, com escolhas parentais como a cama compartilhada e amamentação prolongada. Antes de ser mãe eu considerava que, via de regra, pais que dividem a cama com seus filhos ou mães que amamentam além de um ou dois anos de idade eram provavelmente muito apegados, não deixavam seus filhos crescerem ou serem independentes. E consegui desconstruir esse pensamento ao conhecer inúmeras pessoas vivendo daquela forma que eu imaginava ser uma exceção. E ver que são pessoas bastante diferentes entre si, não uma tribo uníssona! E venho percebendo que dizer a um pai ou uma mãe que não podem cuidar de seus filhos de uma forma ou outra, sem conhecer sua história, suas questões e tudo aquilo que o torna aquele sujeito em particular, e não qualquer outro, é no mínimo inútil.  E pode ser, alias, bastante prejudicial.

A partir do ponto em que me encontro do meu percurso consigo ver que a maternidade não é tão cor de rosa como eu, nas minhas fantasias de menina, supunha. Nem também tão patológica como alguns anos de estudo possam ter dado a entender. Vejo que criar filhos é uma construção, assim como viver. Construção a ser feita em conjunto, porque o idílio da mãe/bebê como unidade perfeita e autossuficiente só existe nas pinturas.

Ser mãe -e pai- é, também, fazer um mergulho dentro de si. É passar por transformações que são únicas e que fazem emergir um universo de complexidades que ao mesmo tempo encanta e assusta. É esse universo que busco conhecer, dispondo-me a escutar e acolher a voz e o silêncio de cada mãe, cada bebê, cada pai ou cuidador, apoiando seus processos de autotransformação, acompanhando o pensar, o perceber, o sentir. Percebo que estamos em um momento em que é possível ultrapassar o “automático” e colocar consciência em cada atitude. A consciência traz responsabilidade e a oportunidade de evolução.

Espero poder aproveitar este espaço para entrelaçar conhecimentos e experiências para refletirmos sobre temas relativos ao mundo da parentalidade e sobretudo da maternagem, esperando suscitar, mais do que respostas, perguntas que conduzam a uma busca que é necessária e absolutamente intransferível.

 

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

2 comentários em “Apresentação

  1. Belo blog, lindo texto! Leve e profundo, feminino e, ao mesmo tempo humano e universal.Que bom ter um espaço para reflexões sobre temas tão fundamentais! Compartilhamentos assim podem ser a companhia alentadora em fases de vida onde nos sentimos, muitas vezes, solitárias, diante da grande tarefa de ser mãe, que move tantos sentimentos! Parabéns!

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