“O possível”

 

Uma vez, muito tempo antes de ter filhos, ouvi que “toda mãe é a melhor mãe que pode ser”. Essa frase foi dita dentro de um contexto, para justificar que, mesmo com todas as falhas e erros, as mães, via de regra, são bem intencionadas em relação a seus filhos, que, dentro dos recursos de que dispõem, fazem o seu melhor para cumprir seu nobre e desafiador papel. Expressa a ideia de que, dentro de nossa existência humana, tivemos a sorte e o azar de termos a mãe que temos ou tivemos e podemos nos sentir confortados com a certeza de que ela fez seu possível. A mãe que ama, a mãe que conversa, a que castiga, a que bate, a que entrega seu filho para que outra pessoa cuide, a que brinca, a que alimenta a todo custo… Essa mãe está fazendo o possível, dentro das suas circunstâncias.

Mas essa mensagem também traz uma possível ambiguidade na interpretação, ao mesmo tempo podendo ajudar a diminuir a carga tão pesada de culpabilização sobre as mães ou também podendo ser lida como um convite à acomodação da mãe.

O que seria esse “possível” da mãe? (E aqui vou incluir na conversa o pai e/ou outros cuidadores centrais na vida da criança, porque não se pode mais falar somente do papel da mãe como figura central na criação). Em que se baseia o possível de cada pessoa que cuida de um bebê, uma criança, um adolescente? Em primeiro lugar, certamente, a bagagem que ela acumulou desde – e principalmente durante – a infância. A forma como foi ou deixou de ser amada e cuidada são bastante influentes sobre como vai florescer como mãe. Essa fase da vida, mesmo esquecida e enterrada, aparece nas linhas e entrelinhas como a parentalidade vai sendo costurada. Além disso entram no repertório de recursos todos os conhecimentos, teorias, aprendizados sociais, culturais e pessoais.

A responsabilidade de criar pessoas é gigantesca. Em cada cultura, em cada momento se lida de uma forma diferente com essa tarefa. Existem sociedades que tomam mais para a coletividade a função dos pequenos (“É preciso uma aldeia para criar uma criança”, como diz um conhecido ditado africano) e existem aquelas em que eles ficam a cargo dos pais. Existem aquelas que institucionalizam a infância, como aquelas em que há mais liberdade nesse sentido. Houve épocas em que a infância era praticamente ignorada, e com o tempo ela foi ganhando mais e mais valorização. Épocas mais conservadoras, em que o autoritarismo em casa e nas ruas era mais valorizado, e em seguida seu reverso, a era do amor livre. Parece que hoje vivemos um momento em que existe tudo isso e um tanto mais. Toda essa herança vive em cada um de nós, circula no mundo e temos mais liberdade de escolha.

Existe um expressivo movimento de pais buscando viver e criar filhos baseados no amor, no respeito incondicional e comprometidos com a consciência em cada ato. Trabalhando, dentro de si e com o apoio de outras pessoas, suas negatividades, para não precisar atuá-las involuntariamente nas relações. Esse modo de viver encanta e contagia. Ao ver pessoas ou comunidades conseguindo levar a vida orientadas para o bem e a verdade o mundo parece mesmo um lugar melhor, colorido de esperança. Mas os desafios continuam aparecendo pelo caminho, e toda boa vontade às vezes parece sumir numa crise emocional da criança (muito conhecidas também como birras).

Crianças são energia pulsante. É muita vibração, emoções intensas, sensibilidade pura. São excelentes na arte de captar climas, sentimentos, em perceber furos nas nossas narrativas adultas. Falam e entendem sua própria linguagem verbal, mas na comunicação corporal, afetiva e intuitiva costumam ser bastante enfáticos. Mas como pode ser difícil lidar com tamanha intensidade, principalmente sabendo que ela não aparece só nas horas de amor e doçura!

Saber que o filho está passando por uma fase de amadurecimento emocional, neuronal, espiritual ou mesmo hormonal ajuda um pouco. Mas não resolve. Como lidar quando meu filho todo coberto de carinhos se revolta frente a cada frustração e não suporta ser limitado? Como ter empatia quando ele parece amplificar o eco de toda a agressividade latente que investi na relação, misturada com o que tenho de melhor pra oferecer?

Pensamentos, teorias, influências posteriores são bastante importantes, evidentemente, mas nos momentos em que o racional é esquecido – seja naqueles de muito amor, seja naqueles em que, como se diz, “o sangue ferve”, e o “automático” entra em ação, em geral é essa herança que chega na frente. De fato, nem sempre é fácil lidar com as tempestades emocionais da vida infantil. E frequentemente nesses momentos a “criança interior” do adulto acaba assumindo o comando.

Como, então, posso fazer a escolha de cuidar com amor e respeito se estou limitada ao meu “possível”? De onde posso tirar recursos se não os aprendi, se não fui alimentada com eles na infância? Como transcender, transformar, se na hora em que mais preciso recaio novamente nos mesmos velhos e enferrujados padrões?

Acomodar-se no velho e conhecido “possível” e tornar-se refém das profundezas do próprio inconsciente é uma opção. Mas quando se chega a certo nível de consciência torna-se impossível voltar atrás. E, na intenção de fazer o melhor, podemos fortalecer nosso repertório de recursos, inclusive emocionais, transcendendendo ou mesmo alargando o “possível” e exercitando a possibilidade de escolha rumo à evolução. Evolução como pais e seres humanos, na vida e na criação de filhos. (O que, na verdade, é a mesma coisa, na essência). Damos aos nossos filhos o que temos para dar – que somos nós mesmos. Do lado direito, do lado avesso. A parentalidade não é um trabalho técnico, é um investimento visceral e intransferível do si mesmo. Embora possa parecer que há uma cisão entre a existência na vida e a parentalidade, como se fosse possível proteger a função que exercemos com os filhos da pessoa que somos pra nós mesmos e para o mundo, na verdade essa separação não existe. Como no ditado “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” (que quem tem filhos já percebeu que não funciona).

Seria bom ter respostas prontas! Faz parte da vida adulta saber que não existem. E busca-las mesmo assim, na esperança de, no caminho, aprender, se não as respostas, ao menos as perguntas que orientam para um rumo que faça sentido. Acredito de fato que haja pouca, bem pouca diferença entre crescer como pai, como mãe, e como “pessoa”. E que uma das belezas de ter filhos é se deixar transformar por eles. É crescer junto, aprender junto. Aprender, sim, sobre criação de crianças, com teorias e com a experiência de outros pais. Criar espaço, abertura para esse aprendizado, na verdade. Colocar palavras, colocar consciência ali onde não havia pode trazer essa abertura. Viver junto. Entrar no seu mundo, no seu tempo, que é no começo um tempo-sem-tempo e depois começa a precisar se pontuar pelo tempo do relógio. Ver o mundo com seus olhos e lembrar, resgatar sua própria criança, a que existia e ainda existe em algum canto escondido. Ampliar o olhar, ampliar o existir. E, assim, talvez, ampliar os limites do que conhecemos como o nosso “possível”.

 

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

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