“A ferro e fogo”

Outro dia, ao me despedir de uma criança que conheço, perguntei se poderia lhe dar um beijo. Como ela disse que não, fiz apenas um tchauzinho com a mão, falando algo como “ah, se não quer tudo bem então!”. E tudo bem, de verdade. Não fiquei chateada, nem guardei ressentimentos ou me senti rejeitada pela criança. Ao meu lado estava outra pessoa, que é muito querida e, devo dizer, alguém que é muito amorosa no seu jeito de se relacionar. E ela comentou minha atitude, dizendo  “ah, está certo… mas se a gente levar tudo a ferro e fogo também não faz mais nada!”.

Na hora não respondi nada, mas depois fiquei pensando.  Nessa expressão, “a ferro e fogo”. A ferro e fogo. Expressão que remete a algo duro, cru, agressivo. Literal. Extremo. Inflexível. Que vai ao limite. Definitivo? Talvez – mas é interessante pensar em como o fogo também remete à transformação – inclusive a do próprio ferro. Expressão também que tem a ver com o que chamamos de radicalismo. Com o tal do politicamente correto, tão polêmico. Em tempos de tanta polarização no pensamento, é muito comum que escolhamos um lado, por simpatia ou identificação de pensamento, e acabemos ficando cegos pro que nos trazem os outros ventos. Como se ter e sustentar uma opinião de alguma forma fosse incompatível com fazer contato e aprender com o diferente. Será que é possível ter uma opinião formada, ser coerente e ainda assim ser flexível?

O termo “radical” muitas vezes é usado para descrever pessoas ou posicionamentos extremos, rígidos, chegando a parecer muitas vezes quase um insulto. Mas também pode ser uma forma de denominar a pessoa que tem uma posição que vai à raiz daquilo que defende, que busca no fundo o sentido de sua visão de mundo. E quando está bem clara a raiz de uma visão de mundo tudo fica mais fácil, mais coerente.

A ilustração do início do texto é um exemplo do que quero dizer. No fundo de um ato tão simples (como pedir permissão a uma criança para beijá-la ou tocar seu corpo) pulsa o respeito pela criança. E este, sim, precisa ser levado “a ferro e fogo”. Não há espaço para relativizar ou negociar o respeito, ele é – ou deveria ser – pressuposto para todas as relações. Mas é interessante como quando falamos sobre as interações com crianças é frequente que as suas necessidades e possibilidades sejam negligenciadas. No caso que citei, a mensagem que recebi foi a de que a relação com a criança poderia talvez ficar mais difícil se levarmos a cabo o respeito incondicional. Nessa trajetória de maternidade muitas vezes me deparo com a reação de pessoas que se sentem de certa forma sem saída com tantas “limitações” ao contato com as crianças. Como se as “regras” impostas pelos pais deixassem as outras pessoas sem repertório para lidar com as crianças.

“Mas não pode dar doce pra ele comer?” “Mas então não pode insistir pra dar beijinho na titia?” “Mas afinal porque é que eu não posso apertar as bochechas do bebê a hora que eu quiser?” “Mas o que é que eu posso afinal de contas fazer com essa criança?”

De fato, é importante que exista a naturalidade nas relações, se considerarmos a criança  como ser do mundo, como indivíduo que age sobre o seu ambiente e dele também recebe influências. Mas a infância é uma fase em que o indivíduo vive sob a proteção de pessoas responsáveis por seu cuidado. Responsáveis também por fazer valer seus direitos, inclusive o direito ao próprio corpo. E se a ‘naturalidade’ de alguns adultos responde a um hábito antigo de desconsiderar os direitos fundamentais da criança, sim, ela precisa ser revista.

E talvez aí faça sentido remeter à raiz, no caso o respeito profundo e incondicional à pessoa da criança. O reconhecimento verdadeiro de que ali, naquele corpinho pequeno e gracioso mora outra pessoa. Que ainda está aprendendo, na prática, sobre o convívio, e para quem algumas convenções sociais não fazem ainda o menor sentido. Com quem a aproximação e os encontros são possíveis, mas. assim como com os adultos, precisam do consentimento. E por acaso algum adulto acharia normal que um estranho passasse a mão no seu cabelo no elevador, por exemplo? Incorporando o significado pleno do respeito fica simples entender porque a criança não tem o dever de abraçar quem quer que seja – nem a própria mãe – se não é esse o seu desejo. E fica fácil aceitar e defender o direito das crianças a si mesmas. Sim, a ferro e fogo.

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

Um comentário em ““A ferro e fogo”

  1. Belo texto que me faz refletir a respeito da delicada arte de unir a espontaneidade ao respeito. Afinando aqui a sensibilidade e o ouvir com o coração…

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