Sobre limites e autonomia

O tema dos limites é muito falado, talvez supervalorizado nos contextos envolvendo crianças. Em geral em alusão ao “colocar” limites, frequentemente numa queixa da falta deles nas crianças ou da dificuldade em impô-los

Vamos então pensar sobre eles. Começando do começo, porque costuma ser mais fácil assim. No começo da vida os limites eram tudo. Lá dentro do útero, que era bem grande e foi ficando pequeno, contornando todo o corpo, este que se tornava cada vez mais humano, da forma como nos consideramos. Limites para todo o lado. Calor. Conforto. Proteção. Aperto? Uma hora fica pequeno demais. Tinha que respirar, como disse Arnaldo Antunes. Nascemos – ou somos nascidos. E, preparados ou não para a vida do lado de fora, sentimos falta daquele apertado. A maior parte dos bebês se sente mais seguro quando enrolado numa manta, sling ou abraço. Viver sem limites para dar contorno ao corpo pode ser muito assustador. Depois o corpo vai ganhando seus próprios contornos, o Eu vai se instalando, tomando conta do corpo, numa relação que vai demorar uma vida pra se estabelecer ainda. E os limites físicos aos poucos vão sendo dispensados. E há momentos em que o Eu parece suficiente, parece tudo. Essa fase da onipotência infantil, em que a criança se crê capaz de tudo (mas que seus pais, estranhamente discordam) é bastante desafiadora para todos os envolvidos, costuma acompanhar uma dose considerável de frustrações e conflitos, exigindo muita paciência. E é comum os pais ficarem perdidos e serem atingidos por uma série de palpitarias acerca da necessidade de… pôr limites.

Aprendi que é impossível e nem seria desejável extirpar o conflito da vida. Não dá para impedir que confrontos existam, já que existem diferenças. E da mesma forma não há sentido em aceitar o que não é aceitável, individualmente ou coletivamente. Mas podemos buscar formas não-violentas de lidar.

Com filhos, por exemplo. Não é possível remover limites ou tudo que possa causar frustração. Nem seria desejável, é claro. Se quisermos que nossos filhos sejam cidadãos do mundo, precisamos ajuda-los a lidar, desde a infância, com a dura realidade de que limites existem. E continuarão sempre existindo. Por muito tempo as crianças ainda precisam da incômoda, frustrante (e até mesmo reconfortante) lembrança de que não podem tudo. Mas isso é muito diferente de acreditar que o caminho para isso seja a repressão severa. Ou de achar necessário estabelecer limites arbitrários para que consigamos fazê-los cumprir com as necessidades que, antes de serem suas, são nossas, dos adultos.

É muito mais fácil que as crianças colaborem com limites quando sentem que essas são necessidades também suas. Ou que lhes dizem respeito, que tem a ver consigo. Ou, ainda, que consigam entender quais são os desejos ou necessidades que precisam ser satisfeitos, e que há alguém ali, ao lado, se propondo a escutá-las, honrá-las e, na medida do possível, atender ao que está no seu núcleo. Talvez isso seja tão difícil porque nós, adultos, também nos esquecemos de olhar para dentro e buscar quais são as nossas reais necessidades, o que é que está por dentro de cada exigência, inclusive em relação aos filhos. E é curioso como nossas expectativas adultas são, tantas e tantas vezes, incoerentes e mesmo incompatíveis com nossas condutas como educadores. Consigo pensar em alguns exemplos.

Queremos crianças concentradas, focadas. Que consigam brincar sozinhas Mas desde seu nascimento oferecemos uma abundância de estímulos visuais e sonoros (brinquedos com luzes piscantes e sons altíssimos, aulinhas de estimulação, a onipresença adulta ativa).

Queremos que sejam sensíveis, autoconscientes. Mas desde que nascem são tantos os movimentos e falas adultos que desacreditam da propriocepção do bebê, que desconfiam e ensinam a desconfiar, a desviar da sua verdade interna: “precisa deixar chorando pra aprender a dormir sozinho”, “ele não precisa de colo, vai deixa-lo mal acostumado”. “Não foi nada, já passou”. “Não vai doer nada”.

Queremos que possam expressar suas emoções e experiências, mas estamos lá de fato para escutar? Ou será que, sem querer, os silenciamos? Dizendo, ainda que amorosamente “não chore”, ou fazendo elogios vazios sem nos desviar dos nossos pensamentos ou de alguma tela?

Queremos que não precisem de artifícios para dar conta da vida, que possam responder ativamente aos desafios que encontrarão em seus caminhos, mas tantas vezes os calamos com chupetas. Ou doces. Ou mais telas.

Queremos, na adolescência, que se comportem como jovens adultos, esperando que não se excedam afastados de drogas e baladas, sem perceber como elas são tão parecidas com as festinhas em buffets com suas estonteantes (no sentido literal) músicas, luzes, cores, açúcar e sal em… excesso. Que se alimentem bem, que sejam magros e se exercitem, mesmo tendo sido criados a papinhas prontas, batata frita, refrigerante em frente à tv.

Queremos que sejam flexíveis, razoáveis com nossas próprias exigências, mas a maior parte das “cartilhas” de pais que vemos insistem em doutrinar que “não é não” e que, em embates, sempre o adulto deve ter a voz mais alta. Como se a criança fosse um pequeno terrorista com quem nunca se deve negociar. Como se flexibilidade fosse sinônimo de fraqueza. Como se a interação entre pais e filhos tivesse a qualidade de jogo de forças.

Esperamos que sejam sujeitos autônomos. Que sejam capazes de não somente escolher o que é melhor para si, mas também de empreender esforços para alcançar seus objetivos. Mas como adquirir autonomia para pessoas que, desde o nascimento, foram privadas desse exercício? Que, muitas vezes, foram desacreditadas na sua sabedoria de escolher o momento de nascer? Que receberam a comida já processada, muitas vezes sendo obrigadas a engolir “de tudo”, mesmo o que não gostavam? Que, em nome da segurança, não tiveram oportunidades de conhecer a si mesmos, seus corpos, seus próprios limites, sua capacidade – e , inclusive, como expandi-la. Que, no processo de educação, tiveram que esquecer ou deixar de lado tantos interesses genuínos para aprender (e em seguida desaprender) conteúdos que, muitas vezes, não tem nada a ver com sua realidade. Que, até mesmo nas festinhas de infância, não foram enxergados como os especialistas em brincadeira que eram, e tiveram suas brincadeiras dirigidas por um adulto, como se não fossem as crianças as maiores especialistas no brincar.

Queremos, enfim, que eles reconheçam a “Autoridade” (assim, em maiúsculas mesmo). Mas como é possível reconhecer o que quer que seja se não nos reconhecemos a nós mesmos? Como enxergar o outro, se não tivermos sido enxergados, naquilo que temos de mais essencial, por outro alguém?

Por outro lado, não queremos, na vida adulta, que nossos filhos vivam em subserviência cega e burra. Não os queremos cordatos, aceitando de cabeça baixa os mandos e desmandos da sociedade. Mas o que farão eles com o velho “você tem que me obedecer porque sou seu pai e pronto acabou!” Em que momento mesmo eles podem começar a questionar? E quem é, neste mundo, que vai aceitar fazer este papel de ser questionado? E por que é que é mesmo tão difícil para nós, que já crescemos sermos questionados?

Um ponto que é preciso desconstruir, com filhos, é a questão da autoridade. Há muitas gerações que parece haver um consenso de que é necessária autoridade. Mas o que é mesmo autoridade? Pare e pense. Para você. O que é autoridade? Tem a ver com hierarquia? Superioridade, talvez? Tem a ver com obedecer? Tem a ver com medo? Respeito? Qual é a diferença aliás entre esses conceitos todos? Talvez intuitivamente seja fácil apreender o significado, mas será que não vale a pena parar pra pensar? Respeito, que entendo como uma consideração do outro, da alteridade. Será que não seria suficiente? O respeito, incondicional, entre pais e filhos, e tudo que disso decorrer?

Queremos, ainda, que nossas crias pensem por si mesmas. E, por sua vez, criem. Mas… queremos mesmo? Estamos dispostos, como pais, como mães, educadores, governantes, como sistema que é feito, afinal, de pessoas, a arcar com isso, a dar conta da parte que nos cabe, a nós, adultos?

Outra questão que cabe aqui: Para transmitir ao outro, no caso a criança o conceito da limitação é indispensável que ele já esteja bem digerido e incorporado em nós. Somente quem se reconhece como pessoa incompleta, que já ultrapassou com sucesso a fase infantil da onipotência, que já incorporou a realidade de ser faltante, que pode transmitir esse conceito ao outro. Que pode ajudar, oferecendo-se como modelo, a perceber que a vida, limitada como é, comporta muitos “sims” além de alguns tantos “nãos” e que crescemos com isso.

 

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

2 comentários em “Sobre limites e autonomia

  1. Ótimas reflexões… Quando convivemos, criamos, educamos nossos filhos somos chamados a revistar e recriar nosso próprio processo… Somos todos projetos com possibilidades de aprimoramento. Gratidão!

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