Feliz dia das mães reais

“Mãe é tudo igual, só muda de endereço”, quem nunca ouviu essa frase? E o que ela tem de verdadeiro? Será mesmo que nós, mulheres, tão diferentes, acabamos nos igualando quando assumimos um papel tão especial? Como se a identidade de mãe ofuscasse de certa forma todos os outros aspectos do ser?

Mulheres

Fico pensando que, quando éramos crianças – e mesmo depois-, era muito fácil vermos as mães como entidades. Assim, como pessoas meio semideusas, que sabem tudo por intuição, que têm a chave para resolver os problemas. Que sabem quando vai esfriar e jamais se esquecem de levar um casaco pras crias. Que não são perfeitas, entretanto: têm alguns pequenos defeitos de fabricação, às vezes dá algo como se fosse um curto circuito, ficam bravas de forma inexplicável, mandam os filhos arrumarem toda a bagunça, não querem deixar que correram sem parar, cada um para um lado, no supermercado… coisas estranhas assim. Ou então as mães podem ainda chorar do nada ao ver um desenho feito para elas, com sua cor preferida.

Assim, todas iguais.

Assim, de acordo com essa imagem quase que arquetípica, seres mágicos. Será? É verdade que existe uma transformação que se acende com a maternidade – Nada fica no lugar, a maternidade não poupa ninguém. E também é verdade que há atributos que, no contato com os filhos (e sendo, na maior parte das vezes a cuidadora principal), a mulher acaba desenvolvendo. E aí parece que acaba virando mesmo uma maga-adivinha cheia de sentimentos. Ou quase. E aí vem a mídia aproveitando essa ideia encantada da mãe e criando um ser ainda mais mítico, que é um pouco uma mãe-objeto. Que, claro, quer o melhor pros filhos e precisa de coisas e mais coisas para cuidar deles e satisfazê-los. Que faz tudo pela família. Padecendo feliz com suas olheiras num paraíso de leite e fraldas. E que como recompensa só precisa de uns presentinhos no dia das mães. Talvez uma bolsa pra guardar seus pertences, junto com alguns brinquedos perdidos no meio.

Chegando um pouco mais perto vemos que essa imagem mítica nada mais é que… um mito! Lembro-me aqui de duas histórias que aconteceram comigo que ilustram um pouco essa quebra de ilusão: a primeira delas se passa no dia seguinte ao nascimento do meu primeiro filho. Recebi a visita de uma prima querida, que ainda não era mãe. Ela pegou meu filho no colo e depois de um tempo ele começou a chorar. Ela o entregou pra mim, dizendo que eu sabia o que fazer. Mas na verdade eu também não tinha a menor ideia! Eu era mãe há apenas algumas horas e não sabia ainda o que fazer com aquela pessoinha! A sabedoria não tinha nascido junto com ele! Foi se desenvolvendo aos poucos, mas naquele momento eu me sentia tão perdida quanto ele! A outra história aconteceu alguns anos depois. Uma amiga, que também não tinha filhos, veio almoçar na minha casa e me viu servindo e cortando a comida das crianças antes de comer a minha, comentou algo como “ah, você é sempre a última a comer, né?”. É essa a ideia de mãe que impera, a de alguém que coloca sempre as necessidades dos filhos antes das próprias. Mas eu também tinha fome!

Não sei bem porque, mas quando me tornei uma delas, ou melhor, assim que descobri a minha primeira gravidez, comecei a empatizar mais com as outras mães. Vê-las como pessoas, não só como cuidadoras. Com tantos desejos, sonhos, limitações como qualquer um. E fui vendo que, mesmo estando completamente preenchida do maior amor que já vivi, não deixei de ser eu mesma. Que a intuição materna não vem do nada. Que tem horas que a gente não tem a menor ideia do que fazer. Que tem horas que só o que a gente quer é dormir. Que às vezes a gente esquece o casaquinho. Não sabe onde estão os brinquedos desaparecidos. Nem as meias. Que muitas vezes estamos descabeladas e sem maquiagem e tudo bem. Mas podemos também querer tempo pra nos arrumar e sentir bonitas. Que, mesmo com filhos amados e bem cuidados, nem sempre nos sentimos felizes. Sentimos medo. E raiva. E culpa – mas nem sempre. Que erramos, pedimos perdão e seguimos buscando evoluir. Que temos desejos e nem todos dizem respeito aos filhos. E que a gente pode até comer junto com eles, olha só! E que nada disso é defeito ou curto circuito, é humanidade.

A maternidade real contrasta com essa imagem mítica e ilusória maternidade ideal. E muitas vezes só a conhecemos ao dar de cara com ela, pessoalmente. E a reação pode ser de estranheza, acompanhada de sentimentos de inadequação, de se perceber como mãe muito diferente das mães do imaginário, dos anúncios, da sua própria mãe. Conviver com outras mulheres aprendendo com os filhos a fazer essa transição pode ajudar muito. Não é à toa que mães são seres meio gregários. É muito valioso compartilhar felicidades e dores e aprender junto com gente que pensa parecido! Para habitantes desse planeta-mãe, em meio a rotinas de sono, brincadeiras e alimentação, muitas vezes a internet acaba sendo a melhor janela, possibilitando uma comunicação que, talvez, antigamente fosse feita com as vizinhas. As vizinhanças de hoje já não são divididas por bairro, mas sim por pequenas bolhas de interesses que se interseccionam. Mas que não coincidem inteiramente. Porque, seja qual for o endereço, ‘real’ ou virtual, na verdade não existem duas mães iguais.

Ufa!! Viva a subjetividade de cada mãe! Porque reconhecendo-se e sendo reconhecidas como pessoas temos a oportunidade de abandonar a imagem da perfeição para encontrar uma vida de alegrias e prazeres reais, integrando o ser-mãe com o ser-mulher.

 

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

 

 

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