Imagem de mãe

Algum tempo atrás eu andava muito cansada na minha vida de mãe. Resmungona. Frequentemente me vitimizando, me sentindo realmente presa a uma função que, ao mesmo tempo em que era feliz e que foi minha escolha, era também muito desgastante, pouco valorizada e um tanto ingrata.

E foi num desses dias, em que eu estava bastante aborrecida, que meu filho pegou a câmera fotográfica para brincar. E naquele momento, em vez de me divertir junto com ele, provavelmente reclamei internamente, preocupada com a possibilidade de ele quebrá-la. Foi alguns dias depois que eu vi, entre tantas outras imagens que ele captou naquele dia (várias dos seus brinquedos, do sofá, selfies só do cabelo, todas em uma perspectiva muito interessante, com olhar e ângulos muito diferentes dos que eu costumo registrar), uma foto minha. Com uma expressão em que me reconheço, mas que nunca tinha visto de fato. (Porque não paro para me olhar no espelho quando estou aborrecida, e quem o faz?). Uma cara misturada entre a tristeza, o desânimo, cansaço… Falando português claro, uma “cara de coitada”. E estava vivendo um dia normal. Sem grandes intercorrências, enfrentando os desafios de um dia absolutamente comum. Ver aquela foto mexeu comigo. Porque nesses momentos eu posso não me olhar, mas eles me olham. Eles, as pessoas mais importantes e mais dependentes de mim, os meus filhos. E, se é assim que eles me vêem, isso é uma questão. Para mim, para nós. Fiquei bastante preocupada com a possibilidade de essa ser a imagem de mãe que estou transmitindo. Do que essa imagem diz e de como ficará marcada. Porque pouco adianta eu dizer mil vezes por dia o quanto sou feliz com eles. O real vivido vale mais, essa tristeza-cansaço, temo, pode falar mais alto. Tenho aqui meus motivos que bem justificam esse meu estado. Mas e daí? Ainda que quando meus filhos crescessem eu pudesse explicar e fazê-los entender e empatizar com o que vivi, isso não fará nenhuma diferença na sua experiência de crianças criadas por uma “mártir”, padecendo no paraíso.

Essa pequena passagem da minha vida foi ligeiramente transformadora. Não porque tenha enfiado um sorriso no rosto, forjando uma felicidade superficial. Mas porque fui a fundo naquilo que aqueles olhos baixos, aquela expressão de quem esperava ansiosamente a hora de dormir, aquele cabelo preso somente para não incomodar poderiam me dizer. E, em vez de esperar a empatia de duas crianças ou de, quem sabe, um salvador qualquer, procurei empatizar comigo mesma. Procurando acolher minha própria criança necessitada de atenção e cuidado, mas também chamando a adulta que é responsável, antes de tudo, por si mesma. É importante manter as crianças vivas e bem alimentadas. Mas a principal nutrição de que eles precisam, tenho certeza, é a de felicidade. Felicidade, um conceito que eu gosto de entender não como sinônimo de alegria, mas como algo próximo de “ver um sentido na vida”. E se existe algo que faz sentido para mim é cuidar e amar meus filhos. Fui buscar, então, onde estava esse buraco negro que levava embora (e, se eu deixar, ainda leva) minha energia vital, sugando a felicidade que eu mereço e da qual meus filhos precisam para se alimentar. Para vivermos, além de existirmos.

Encontrei naquela imagem um tanto de idealização – da família perfeita, da mãe ideal, da casa razoavelmente organizada, dos filhos colaborativos possibilitando que isso tudo acontecesse. Encontrei frustração. Encontrei solidão. E por que estou aqui a desvelar isso tudo? Porque, paradoxalmente, não estou sozinha nessa solidão. Percebi, ao olhar em volta, ao expor, um tempo depois, um pouco dessa minha sensação, que ela é mais comum do que eu pensava, em pessoas com a vida semelhante à minha. Que esse buraco não está no meu coração, no meu apartamento longe da natureza, nem muito menos nos meus filhos. A imagem social de mãe – não a da minha foto, mas a dos anúncios, aquela sorridente servindo um bolo para família perfeita, está muito longe daquilo que o nosso mundo favorece para aquelas que têm a missão mais importante da nossa organização social. É muito comum, principalmente no meio urbano, que as mães sejam um pouco isoladas, sobretudo se fazem a escolha de não trabalhar fora de casa. Hoje, para as mães de bebês, há muitas iniciativas maravilhosas de integração e apoio. É um passo importante. Mas ainda falta um tanto para chegarmos a um estágio satisfatório de integração da mulher, que pode (e muitas vezes se sente cobrada a) exercer concomitantemente uma série de papéis: trabalho, cuidado com a casa e filhos, com o corpo, a vida amorosa e social. Talvez somente para quem está do lado “de dentro” desse papel que venha à mente a pergunta óbvia: “mas como?”.

Perdida no meio das rotinas e vicissitudes dos cuidados com filhos, fui-me em muitos momentos esquecendo de viver. E essa percepção me fez virar uma chave para descobrir meios de me reencontrar com o que faz sentido, com o que me faz feliz. Que, sim, tem muito a ver com cuidar das crianças, mas que também passa por satisfazer uma porção adulta, uma porção mulher. Que pode e deve ser integrada. Tanto no nível individual como coletivo.

A maternidade não é o fim do caminho para a felicidade, é, talvez, uma das estradas que podemos seguir. Mas certamente é possível afirmar que seria um peso gigantesco para os filhos serem responsáveis pela felicidade dos pais. Esperar por isso é garantia de frustrações e culpa. Ao contrário do que pode ditar uma cruel lógica perfeccionista, as crianças não precisam ter a mãe por inteiro, é inclusive saudável que não se percebam como foco único do interesse materno.  É importante que as mães, conforme vão saindo da fase de dependência absoluta do bebê, possam ir se recordando ou reinventando aquilo que as faz felizes. Cultivando seu pulsar interno. Por si mesmas e até pelos filhos.

Crianças costumam ser felizes, quando bem cuidadas. Vivendo sobretudo o momento presente, aquilo que experimentam, aquilo que fazem têm um sentido, muitas vezes imediato. Seu viver tem uma qualidade lúdica e apreendem o mundo a cada momento. Ainda não aprenderam a agir no “automático”, suas ações ainda não se esvaziaram. E talvez seja disso que possamos nos recordar ou reaprender com elas.

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

 

2 comentários em “Imagem de mãe

  1. Escrever com tanta delicadeza e entendimento é uma arte! Exatamente assim aqui, comigo, mãe de dois, que já me vi numa foto destas e me questionei, mas o que me salva mesmo, que provoca a me questionar e me reinventar, é a minha análise, sem ela estaria ainda com aquele olhar de quem apenas espera a hora de dormir, e confesso muitas vezes é só isso mesmo…. obrigada por nos descrever tão bem!!!

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