Precisamos falar sobre o “mimimi”

Todos já ouvimos (ou mesmo usamos) expressões como “manha”, “mimimi”, “birra”, “chilique” para nos referir a manifestações ou comportamentos de alguém – seja outra pessoa ou até de nós mesmos. Geralmente em referência a comportamentos que não entendemos ou que nos incomodam. Muitas vezes usadas para enquadrar um sentimento ou experiência de forma pejorativa, deslegitimando, diminuindo-o.

De alguns anos para cá surgiu essa expressão – mimimi. Tendo a acreditar que, quando as palavras “surgem”, sua criação responde a uma necessidade de expressar aquele conteúdo. No caso, uma postura reclamante, ou talvez de lamentação insistente, possivelmente excessiva, egocêntrica, plena de autovitimização e cega para o mundo e suas possibilidades. Será? Pode ser. Mas tenho visto também um exagero na utilização dessa expressão. Talvez uma distorção ou generalização do seu sentido original. Como se qualquer reclamação, mesmo que legítima ou necessária, fosse um… mimimi. Reclamações por direitos, expressões de sentimentos de fragilidade (física, emocional, social) são constantemente interrompidos por alguém que decreta que não passam de mimimi. E taxar qualquer fala de mimimi é um bom jeito de calar uma voz. De deslegitimar sua mensagem, ou mesmo o mensageiro. De negar o direito ao protesto, sem considerar ou mesmo ouvi-lo.

Não é a única maneira com que isso é feito na nossa cultura. Na verdade esse padrão começa cedo. Bem cedo. O bebê recém nascido que chora e precisa de colo muitas vezes é chamado de manhoso. Muitas vezes, como resposta ao choro, já é rapidamente dado o diagnóstico: cólica. E, de desconhecidos na rua a pessoas próximas e queridas (bem intencionadas, inclusive), não vai faltar quem recomende negar colo, consolo ao bebê. Negando, assim, também, tentativas de acolhimento, de compreensão, da escuta à sua subjetividade. Que nasceu consigo, com seu corpo e vai desabrochando cada vez mais ao longo da vida. Depois das cólicas os incômodos e reclamações passam a ser apontados como sinais dos dentes que nascem. Sim, é mais fácil enxergar, naquele pequeno ser, somente um corpinho que funciona e des-funciona, em vez de lhe supor sentimentos. Parece mais simples lidar com questões mais concretas, objetivas.

Os dramas existenciais que se seguem facilmente vão ser classificados como “terrible twos”. E os protestos, as tentativas de lidar com as barreiras e condições difíceis da vida? Birras, claro. Depois vai vir a fase da “aborrecência” em que, com olhos virados pra cima, os adultos vão minimizar o monumental desafio que é se encontrar e se colocar como pessoa num mundo tão difícil. Se a pessoa em questão for mulher, então, encontrará deslegitimizações das suas experiências a tempo todo, com explicações “hormonais”, de tpm à menopausa, passando por gravidez, puerpério… Mais uma vez, a culpa está no corpo. Será chamada de histérica e terá sua voz menos ouvida que a dos homens.

Tenho a impressão de que está muito difícil lidar com a fragilidade e suas formas de expressão. Não sabendo lidar, o mundo cala, ridiculariza, escamoteia qualquer tipo de vulnerabilidade individual e coletiva. Quanto mais a pessoa ou grupo é enxergado como vulnerável no imaginário coletivo, mais tem chances de sofrer o chamado gaslight. E aos que ousam se expressar ou mesmo aos que procuram proteger que se expressa muitas vezes é reservado um tratamento muito pouco acolhedor. Será que estamos tão quebradiços que não aguentamos lidar com a fragilidade, precisamos sumir com ela? O que faz a fragilidade tão ameaçadora, tão forte?

Paralelamente, tem se aberto alguns espaços para olhar para alguns tipos bastante específicos de massacres, como o racismo, o machismo, o classismo, o adultismo. Sim, o adultismo, ou a maneira como a sociedade naturaliza a suposta superioridade do adulto sobre a criança, negando-lhe direitos e dignidade que são inerentes à sua natureza humana. Exigindo das crianças uma objetividade que ainda não é possível e oprimindo a qualidade infantil do seu viver. Para as crianças a palavra do adulto é ainda crucial para a construção da sua paisagem emocional. Precisam do olhar do adulto, precisam dele, inclusive, para ter lugar de fala, para um aval ou assinatura embaixo validando seu discurso.

E estas, as crianças, quando diminuídas, quando não enxergadas, aprendem não só a não enxergar o outro. Se não são ouvidas não desenvolvem a habilidade de lidar com as próprias emoções. Aprendem a não enxergarem a si mesmas. Vão perdendo a sintonia com seus desejos, suas necessidades, a habilidade de se perceber e atender seus anseios. Correm o risco de serem achatadas emocionalmente, atrofiando os recursos que lhe permitiriam acessar as dimensões de sua riqueza psíquica. Até que podem chegar a diminuir seus próprios sentimentos, interpretando-os como… manha. Birra… Frescura… Mimimi…

Claro que existem cólicas. E dentes. E pode mesmo ser difícil lidar com crianças e adolescentes efervescendo (pode ter certeza, para eles deve ser ainda menos fácil lidar consigo mesmos e com seu entorno). E existem mesmo reclamações egocêntricas, insistentes e cegas. Mas antes de rotular todo aquele protesto que consideramos incompreensível ou desagradável é preciso escutá-lo. Não necessariamente atendê-lo, nem sempre é possível. Mas ouvir, abrir o canal de comunicação, empatizar, acolher e, sobretudo, respeitar a voz que o expressa

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

 

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