Pode partir sem problema algum

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Vou falar sobre escolas. Mas acho que seria mais acertado dizer que o tema aqui é a separação. Ou melhor, as separações entre mãe e filho. Essas partidas que às vezes nos deixam “partidas”. Sobre o sentir e como ele muda o pensar. Para mim este processo foi muito marcante desde que me tornei mãe. Vi caindo um a um tantos dos conceitos nos quais, mesmo sem pensar muito, eu acreditava porque “é assim”, porque todo mundo faz assim e pensa assim.  Então o processo de fazer escolhas, desde o parto, foi uma construção. E uma série de desconstruções.

Mencionei o parto não por acaso – foi a primeira separação. Cuidei para que fosse respeitada e bem cuidada. E eis que o mundo já veio apresentando obstáculos. Meu filho nasceu aos cuidados de uma equipe extremamente respeitosa, mas dentro de uma maternidade, instituição com normas próprias. Uma destas dizia que bebês precisavam passar pelo berçário antes de irem para o quarto com suas mães. Burocracia que naquele momento não tive energia para contestar, mas que custou sofrimento e inquietações: Que violência sermos separados, por minutos que fossem! Será que precisava disso?

Passa-se o tempo. Vivemos. Acho ótimo que ele aprenda a lidar com o mundo. Subir em árvores. Cortar com tesoura. Conversar com pessoas. Faço questão de deixá-lo viver, mas quero cuidar, participar, olhar, estar por perto, viver junto. Quando ele era bem pequeno lembro-me da expressão que fazia, olhando para mim quando via algo que chamava sua atenção. Ele me olhava para ver se eu estava vendo também, como se eu fosse a confirmação do seu entusiasmo. Queria compartilhar comigo, como se se eu não estivesse vendo, a experiência para ele não teria tanto valor, tanta graça: “Mamãe, você está vendo o que eu estou vendo? É incrível, não é?”. Claro, essa fase não duraria para sempre, nunca acreditei que ele iria me querer compartilhando de todas as suas vivências com o mesmo furor na adolescência!

Tendo o privilégio da disponibilidade de estar com ele nos primeiros anos, decidimos esperar para colocá-lo na escola. Não foi fácil, mas foi maravilhoso estar com ele o tempo todo, acompanhando tão de perto seus primeiros contatos com o mundo. Expandir seu universo, fazer amigos, ganhar uma irmã e lidar com tudo isso.

Mas enfim chegou o momento. E também não foi fácil. Para mim, para começar. Tinha dúvidas e inseguranças. Achava que ele iria ganhar muito estabelecendo laços mais significativos com outras pessoas, adultos e crianças. Que aprenderia para além daquilo que nosso pequeno entorno poderia proporcionar. Que teria mais espaço e viveria lindas experiências, num ambiente seu, “só” seu, e não nosso. Tudo bem, acho que estávamos preparados pra isso. Ou melhor, nos preparando, no gerúndio. Mas eu tinha minhas questões com a escola, como conceito. Neste aprendizado todo que tenho vivido com a maternidade fui aprendendo que ela não é a única possibilidade, vivi com pessoas que escolhem alternativas para a educação dos filhos, um ponto de vista que passei a entender e respeitar. Escolhemos a escola com bastante cuidado; um lugar muito bem indicado e que, desde a primeira visita, me encantou. Um lugar vivo, de alegria e paz, com crianças e adultos felizes e em harmonia.

Eu sentia que precisava de um período muito bem cuidado de adaptação, ainda não me sentia preparada para sair quando fui convidada a ficar em outro ambiente. Mas afinal ele parecia estar bem, então fui. Antes de ir cantei, com meu filho um trecho da música Asa Branca, que gostamos muito, que diz “eu te asseguro, não chore não, viu, que eu voltarei, viu, meu coração”. Tudo bem sentir saudades, e ele não ficaria para sempre na barra da minha saia, mas de novo me veio a sensação da ruptura operada por uma instituição… será que precisava? Será que precisávamos, naquele momento, ser separados?

Os dias se passaram e, apesar de eu perceber que a escola correspondia às expectativas que criamos, que era realmente um lugar feliz, onde meu filho estava bem, ele teve algumas questões complicadas na época da adaptação. Várias vezes não quis entrar ou ficar na escola sozinho. Muitas vezes eu o tentava convencer a ficar na escola. Em outras não houve acordo e o levei de volta para casa comigo. E nessas ocasiões me senti, sempre, julgada. Pelos profissionais, pelos outros pais, pelo mundo… Sentia caindo sobre mim a imagem da mãe fraca, manipulada pela criança. Lembrava-me de quantas vezes, estando “do outro lado”, atendi crianças e observei situações parecidas, com mães como a que eu era agora… será que no fundo esse meu incômodo era eu mesma me julgando uma mãe insegura, que aprisiona o filho? Mas não era assim que eu me via!. Pelo contrário, me via como uma mãe que respeita os sentimentos, possibilidades e necessidades do filho. Ainda estava digerindo o fato de essas necessidades me ultrapassarem. E como é que eu poderia, afinal, ser firme se eu não sentia essa firmeza toda? Como poderia transmitir uma segurança que eu não tinha? Como dar conta daquilo que simplesmente eu não dou conta? Ninguém pode dar aquilo que não tem. Não é mesmo?

Nesse período veio a dúvida se estávamos tomando a decisão acertada. Perceber que ele de fato estava bem quando ia à escola foi o que deu sentido e fez com que mantivéssemos essa escolha. E também a conexão que foi se estabelecendo com as pessoas a quem estava confiando meu filho. Com quem tinha escolhido fazer aquela parceria para a educação e para a vivência de infância dele. Encontramos, lá, profissionais amorosos e competentes e uma coordenadora atenta e sensível, com quem conversei inúmeras vezes. Nessas conversas ela sempre me ajudava a identificar quais eram os pontos de entrave. Qual porta estaria fechada para a confiança que eu precisava para fazer essa entrega, essa parceria.

Eu era, ali, a mãe, mas também uma pessoa que traz, ainda, uma bagagem. E o medo. O medo de ele sofrer e eu não estar lá para ver, para atender, para cuidar. Ou melhor… a certeza de que, não só na escolinha, mas na vida ele vai sofrer. E eu cada vez menos vou estar junto. Precisando sustentar a confiança com base no que já está plantado dentro dele. Acreditando que ele, ajudado pelo mundo e levando as referências parentais dentro de si, vai dar conta dos desafios do mundo e vai crescer assim. E não é só nas dificuldades que se cresce. É nas alegrias também. E, em todas as vezes que entrei na escola a sensação que tive no começo se confirmava pra mim: este é um lugar feliz. Que me dava vontade de ser criança para estar junto do meu filho. Vendo-o brincar e brincando junto, ouvindo as histórias que ele ouve, aprendendo junto as músicas, ver nascer as amizades. Mas… reconheço que aquele é um lugar das crianças e que ele vai viver experiências sem mim. E até certo ponto sou eu que preciso lidar com isso.

Em uma das conversas com a coordenadora, voltamos a conversar sobre como a escola estava para mim (e não nego que às vezes sentia que o “problema” estava em mim, por ter minhas questões pessoais com a escolarização, por ser a cuidadora principal, responsável por leva-lo à escola… e simplesmente por ser a mãe). Uma das sugestões que ela deu foi irmos, no caminho para a escola, ouvindo uma música que eu gostasse. Não uma de criança, uma que eu mesma gostasse. Eu entendi o que ela queria, que aquele momento de ir levá-lo, a iminência da separação, não fosse tenso, mas divertido. Para mim também. Era uma boa ideia. Na verdade foram, nessas conversas, muitas boas ideias, e quase todas elas tiveram bons resultados, principalmente quando nasciam de um gesto verdadeiro e respeitoso para com ele. A confiança estava, enfim, se estabelecendo.

Na volta para casa, nesse dia, meu marido se lembrou de uma música que nosso filho adora e que tem tudo a ver com tudo aquilo. Aquela do carimbador maluco, do Raul Seixas. A do Plunct Plact Zum. Que diz: “o que eu queria mesmo era ir com você, mas já que eu não posso boa viagem e até outra vez”. Era isso, para que ele pudesse partir sem problema algum era eu que precisava dar o meu carimbo dando sim, sim, sim. O óbvio, o já tantas vezes repetido, mas cantado numa melodia animada e divertida. Diferente da presunção do choro e da dor do trecho da Asa Branca que era o que eu podia sentir e deixa-lo sentir no comecinho. E talvez só naquele momento, depois de uma história e uma relação construída ao longo do semestre, eu pudesse dizer, do fundo do coração, que ele podia partir sem problema algum. E, tantas vezes, ele mesmo se lembrou de cantar essa música, no caminho para a escola ou mesmo se despedindo de mim. Sei que ainda tenho minhas questões, mas pude dispensar meu filho de carregar aquela bagagem comigo. Tenho a intenção de agir de acordo com a nossa verdade, e dei um passo importante no sentido de aprender que a dele não é sempre a mesma que a minha. Se ele precisar de mim, estou e sempre estarei disponível. Mas sei que a porta que deixo aberta para que ele volte também precisa estar aberta para que ele vá viver suas aventuras. Posso agora de fato desejar ao meu filho: Boas viagens pelo seu universo. Pode partir e ser feliz sem problema algum.

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

 

 

 

9 comentários em “Pode partir sem problema algum

  1. Que lindo! Enquanto eu lia, me dei conta de que eu lembro muito bem de como foram difíceis para mim os primeiros anos na escola quando eu tinha que me separar de minha mãe por horas, mas que nessa época eu nem imaginava que a mesma situação podia causar um sentimento parecido nela.

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    1. Que interessante que você ainda se lembra! Eu penso bastante nisso, no que meus filhos vão se lembrar. E também naquilo que eles não se lembrarão, mas ficará registrado de alguma outra maneira, emocional ou corporal…

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  2. Lindo, Elisa! Sempre achei que a experiência da paternidade é uma das coisas mais surpreendentes entre as experiências de vida, por como nos defrontamos com nós mesmos de uma forma nova. Claro que a maternidade apresenta muitos outros aspectos, mais profundos, íntimos, onde a separação, aliás, as separações, várias, contínuas, são mais sentidas, e tem que ser enfrentadas no sentido

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  3. Elisa, enriquecedor seu depoimento como mãe….compartilhei na Creche onde trabalho para trabalho em grupo de professoras e Coordenadora Pegagógica, mostrando a todos a importância da adaptação, segurança, afeto e respeito para com a família em um momento tão difícil da separação. Bjs

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  4. Elisa, quando a sua xará foi á escola pele primeira vez, quem chorou fui eu!Ela foi toda alegrinha!(ainda bem!).Gostei muito do seu texto!Mães e educadoras deveriam lê-lo.
    Yara Najman

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    1. Obrigada, Yara, fico muito feliz com seu comentário! E acho que é assim mesmo… A gente chora porque sente esse crescimento todo, a separação…. Faz parte da vida, mas que parte um pouco a gente no meio isso parte!

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