Childfree: Entre a escolha de não ter filhos e o discurso de ódio contra crianças

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Com o conhecimento que temos hoje podemos dizer que as fases de vida e a forma como os relacionamentos se constroem são, em grande parte, construções sócio-culturais. A infância, por exemplo, é vivida e vista hoje de uma maneira completamente diferente de como costumava ser algumas décadas atrás. Passamos por fases em que crianças eram criaturas pouco investidas, outras em que tinham status de mini-adultos e, mais recentemente, de pequenas “majestades”, como apontou Freud há pouco mais de um século. Houve épocas em que as crianças pouco conviviam com os adultos, sobretudo nas classes mais abastadas. O cuidado específico com a infância é relativamente recente – os olhares começaram a se voltar para as crianças conforme foram se descobrindo as características e necessidades específicas desta fase de vida. Podemos perceber que hoje há muito investimento de todo tipo nas crianças – familiar, educacional, científico, comercial…

Os fatores que levam a criança a ser gerada também mudaram muito com o tempo. Se antigamente a reprodução era o destino óbvio de quase todas as pessoas, hoje ela tende a ser cada vez mais voluntária, baseada em uma escolha. Os filhos vêm, geralmente, de algum nível de desejo dos pais que o geraram ou adotaram. Ainda que para muitas pessoas – sobretudo mulheres – a maternidade ainda tenha caráter um tanto compulsório, simbolicamente ela já é entendida socialmente como uma escolha. E essa “nova” realidade tem alguns aspectos a ser considerados. Se por um lado pode parecer muito interessante ter filhos por escolha própria, como parte de um plano de vida, por outro lado a criança pode figurar como um reflexo da vontade dos pais, quase mais um bem a ser adquirido. Muitos casais gastam anos e verdadeiras fortunas tentando ter um filho – “reproduzir-se”. É interessante o uso desse termo: reprodução. Ou produção. Se a criança é considerada um produto, perde o caráter humano. Pode chegar a ser entendida como objeto. E é aí que quero chegar.

Do outro lado temos as pessoas que escolheram não ter uma família com filhos – que frequentemente enfrentam forte pressão social e familiar devido a essa escolha. Muitas mulheres, sobretudo, se sentem cobradas , com argumentos pretensamente científicos, que naturalizam o amor materno e a necessidade social de assumirem o papel de mães, ainda que isso não corresponda a seus desejos ou possibilidades. É nesse contexto que parece ter origem o movimento chamado de childfree (que pode ser traduzido como “livre de crianças”). Até aí tudo parece se encaixar. Porém muitos dos porta-vozes desse movimento fundamentam suas escolham de não terem filhos com discurso de ódio contra crianças. Discurso que se fosse dirigido a negros ou mulheres, por exemplo, logo seria entendido como racista ou misógino. Como se seu direito de não se reproduzir de alguma forma legitimasse sua intolerância às crianças. (Que não são somente “filhos dos outros”, mas são, antes, pessoas. Que têm todos os direitos e estão sujeitas às mesmas regras dos demais seres humanos da sociedade).

Trata-se de pessoas adultas discriminando a presença de criança em ambientes públicos ou privados, referindo-se a elas com adjetivos bastante pejorativos. Considerando-se inclusive no direito de não conviver com pessoas de determinada faixa de idade. Parece muito difícil entender como tal nível de intolerância possa ser aceita e ser inclusive considerada engraçada.

Ora, se as crianças são consideradas “produto” de alguém, logo não são – ainda – “alguém”. E o que ouvimos desses adultos intolerantes vai ao encontro desse tipo de pensamento: muitas vezes expressam seu desejo de que os adultos contenham “suas” crianças. E é somente se as crianças são consideradas produtos, ou mesmo propriedades dos adultos que fazem sentido frases como “não preciso aturar o que saiu de mim”. As crianças, de acordo com esse tipo de pensamento, não chegam a ser consideradas humanas, são comparadas com objetos ou mesmo excrementos.

As críticas ao discurso adultista discriminatório o acusam de ser machista e pouco acolhedor ao direito de ir e vir das mães, que costumam ser as cuidadoras principais. De fato, excluir as crianças acaba por excluir quem delas se encarrega, mas não é menos grave discriminar uma pessoa porque esta tem menos idade. E é curioso, inclusive, pensar que a vida das crianças, tão defendida, desde o útero, por tantos, é tão pouco aceita, dentro das suas particularidades, durante os primeiros anos de vida.

Crianças – assim como filhotes de outras espécies – são seres que atraem muita atenção. São envolventes, Chamam a atenção para si, voluntaria ou involuntariamente. Crianças e bebês choram, Aprendem. Vivem, vivem muito. Ousam sentir, expressar. São de uma fragilidade e ao mesmo tempo de uma vitalidade muito marcantes. São dotados de estratégias de sobrevivência muito elaboradas: não fazem cerimônia quando precisam de atenção. E, geralmente, são considerados encantadores. Mas a criança-objeto não é pessoa. É uma fofura. É uma graça. Pode provocar encantamento, amor, desejos. E também medo. Horror. Ódio. Sentimentos, aliás, que pode vir misturados (o termo “pedofobia”, bem como “homofobia” faz alusão ao medo, mas na prática vemos que costuma se expressar mais como ódio). De onde pode vir esse medo-ódio que muitos adultos se sentem, hoje, no direito de expressar contra as crianças? De que – ou de quem – fala esse tipo de sentimento? Que tipo de conteúdo é esse que é projetado nas crianças de forma tão insuportável que tantos adultos – de forma bastante infantil, ironicamente – precisam se afastar? Deixo aberta essa questão, até por me sentir por demais envolvida emocionalmente para conseguir respondê-la. Talvez possamos pensar juntos?

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

3 comentários em “Childfree: Entre a escolha de não ter filhos e o discurso de ódio contra crianças

  1. A respeito desse texto tão interessante, veio-me a questão : estaremos, ainda, na nossa separatividade e impaciência, deixando – nos levar automaticamente por nossas feridas de infância?
    Se assim é, cabe-nos olhar, acolher, curar….

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  2. Criança é uma fase da vida, é burrice essas comparações entre crianças x negros.
    Seu filho, seu carma. E ninguém é obrigado a aturar criança sem educação.

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    1. O interessante é observar como algumas pessoas adultas acham que não são obrigadas a “aturar criança sem educação”, mas não vêem problemas em serem mal educados com os outros, como se a falta de educação dos adultos fosse mais “aturável” não é mesmo?

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