Pensando e celebrando a amamentação

Estamos comemorando a Semana Mundial do Aleitamento Materno. E por que é que ela é tão importante?

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Para entender talvez seja interessante pensarmos um pouco sobre o lugar que o aleitamento tem no nosso mundo. Mas antes disso vou partir do particular, contando uma pequena história pessoal a respeito.

Antes de ser mãe – e de amamentar – eu não tinha ideia de que existia a celebração da SMAM e talvez  não fosse compreender sua importância naquela época. Poucos meses depois de meu primeiro filho nascer, participei de um grupo de mães, coordenado por uma consultora em aleitamento. Ela nos convidou a pensar e compartilhar sobre como vivenciávamos a amamentação. E foi aí que me dei conta de que eu na verdade não amamentava sozinha. De como estava sendo fundamental o apoio que eu encontrava no meu entorno. Do pediatra que me ajudava a buscar as informações necessárias, do marido que cuidava de mim para que eu pudesse cuidar do nosso bebê (e muitas vezes levando água e comida enquanto eu estava com o pequeno mamando), sem esquecer o apoio e companhia de outras mães que viviam a mesma fase que eu. Eu me vi e me senti abençoada por contar com tanto apoio. Houve esforço da minha parte e até um pouco de sorte, sim, mas vejo claramente o privilégio que é ter onde e com quem buscar suporte.

É interessante como as práticas de amamentação – como todas relacionadas à infância, aliás – se transformaram ao longo do tempo e ainda variam muito de acordo com a cultura e a época. Há sociedades que valorizam e garantem o aleitamento materno exclusivo, enquanto outras têm hábitos diferentes, como o desmame precoce ou as amas de leite. Algumas décadas atrás a indústria, patrocinando médicos, questionou os benefícios do leite materno, seduzindo as mães com promessas e supostas vantagens da fórmula infantil, como a praticidade. A prática do desmame precoce chegou a níveis preocupantes. Hoje já não há dúvidas de que o leite materno é o alimento ideal para o bebê e a amamentação voltou a ter lugar de destaque. Qualquer pesquisa rápida mostra uma infinidade de referências sobre amamentação, a maioria listando as maravilhas do aleitamento materno, tantas outras tratando sobre as dificuldades que podem aparecer, de machucados no peito a interferências externas negativas, além dos inúmeros mitos que cercam o aleitamento materno.

E, nas linhas e entrelinhas dos textos e conversas sobre o tema podemos perceber que amamentação, antes de ser fonte de vitaminas, água e energia, é relação. Amamentação vai muito além do leite, de nutrição. O ato de amamentar tem também a ver com investir emocionalmente no bebê, com alimentá-lo de sentimentos. Tem a ver com as primeiras sensações da criança, com o começo de uma relação que é matriz para tantas experiências posteriores. E, sim, que se trata das primeiras vivências sexuais. É inclusive algo como o núcleo da relação primária e uma das mais determinantes da vida, que é a da mãe e filho. E, como qualquer relação, tem nuances, tem fases, tem trocas intersubjetivas. Tem olhar, tem escuta, tem conflitos…

Da mesma forma, a amamentação, ainda que esteja inserida em um contexto sócio-cultural (e possa inclusive ser encarada com um ato político e de resistência) e responda a demandas e limitações do entorno, é, também, extremamente pessoal. Diz respeito, antes de tudo, a duas pessoas, unidas mas distintas, que estão se conhecendo, aprendendo a ser, a se relacionar. Diz respeito a uma mãe que, mesmo que tenha outros filhos, está fazendo o movimento de se abrir para um ser novo, ainda completamente dependente. Que está lidando com mudanças intensas no seu corpo, na sua rotina, na sua identidade. Procurando entender como viver em um tempo e ritmo que não são mais seus e nem do relógio, mas adaptados às necessidades sempre urgentes do bebê. Que está resgatando uma infinidade de conteúdos emocionais, frequentemente inconscientes, que podem influenciar a maneira como vivencia a chegada do filho e a sua experiência de amamentá-lo. E o bebê, por sua vez, está despertando para o mundo e para todas as mudanças ambientais que lhe parecem tão estranhas. Luzes, sons, toques, cheiros, sensações novas que a digestão provoca… Sendo aos poucos imantado de sentimentos, sensações, expectativas… tudo aquilo que o faz humano. Não nos lembramos, mas já vivemos toda essa transição e se fomos bem sucedidos o devemos ao cuidado de alguém que nos maternou.

Em suma, o período de amamentação é uma fase bastante especial da relação entre mãe e filho, possivelmente intensa, que tem começo, meio e fim. Apesar de ser natural, a amamentação paradoxalmente não é instintiva, em muitos casos não é fluída. É atravessada por questões psíquicas, familiares, ontológicas, biológicas, de forma que todas essas “camadas” podem precisar ser olhadas e cuidadas para que aconteça positivamente. A amamentação é, sim, somente uma parte da maternidade e sabemos que em muitos casos ela é não é possível e situações como essa merecem e precisam também de apoio. Mas entendendo que ela corresponde a uma necessidade primária do bebê e, se responde também ao desejo da mãe, pode e deve ser promovida pelo entorno. E é neste contexto que faz sentido celebrarmos o dia e a semana do aleitamento materno, com festejos e conversas que ajudem a promover informação e conhecimento.

*Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

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