E o pai?

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A proximidade do dia dos pais tem trazido o tema da paternidade à tona. Ainda que o dia tenha uma origem comercial, não deixa de ser uma oportunidade para falarmos sobre a paternidade. Sim, precisamos falar sobre ela. Sobre os homens e sua experiência como pais.

Existe aquela frase conhecida: “não basta ser pai, tem que participar”. Por que é que esse ditado jamais faria sentido se falasse sobre a mãe? Parece-me que é porque a mãe, via de regra, participa. Ela é chamada a ser parte, isso lhe é exigido desde o início, sua participação não é facultada na vida dos filhos. É pressuposta. E o pai? Pode ele modular sua participação na vida dos filhos, à sua escolha?

Quando um pai começa a ser pai? Muitos homens relatam que começaram a se sentir pais quando sentiram os filhos mexendo dentro da barriga da mãe. Outros, no nascimento. Outros, ainda, quando os filhos começaram a de fato interagir com ele. (E talvez haja alguns que nunca, de fato, se sentiram ou atuaram como pais.) É como um personagem de um seriado diz: “Eu tinha me dado conta de que eu teria um filho… eu só não tinha me dado conta de que ele teria eu!”. Sim, ter um filho não é somente sobre uma mudança de status ou mesmo identidade, mas sobre o nascimento de uma pessoa pela qual se tem inteira responsabilidade.

No início da vida de um bebê, a função do pai tem a ver muito mais com cuidar da mãe para que ela possa se encarregar dos cuidados com o bebê. Essa missão é fundamental, na medida em que possibilita que a mãe se dedique completamente à construção da relação que vai ser a fundação da vida emocional da criança. É muito comum que, nessa fase, o pai fique um pouco perdido, sem saber qual é seu lugar na família. Pode ser muito difícil fazer a despedida da vida anterior, sem filhos – e para muitos essa despedida de fato nunca acontece, porque dispõem de pouca ou nenhuma abertura para essa mudança. É muito comum que não saibam como agir, já que não têm o repertório dos cuidados com bebês. Conforme a criança vai crescendo, no entanto, o papel do pai vai se ampliando e ele passa a ter outras funções bastante importantes, como mostrar ao filho outros pedaços de mundo que vão além do colo materno. E chega a hora de a mãe dar espaço para que esses novos pedaços de mundo, representados pela figura do pai, possam ter entrada.

Em psicanálise frequentemente usamos o termo “mãe” para falar sobre a função materna, que tem a ver com cuidar, acolher, embalar; enquanto “pai” denota a função de fazer cortes, negar e, com isso, apresentar um novo universo. Não por acaso. Foi uma teoria criada em uma época em que tais funções eram muito mais definidas, delimitadas. Vivíamos um mundo pré-feminismo, em que um homem trocando fraldas devia ser mais raro do que um recém-nascido que dorme a noite inteira. Hoje esses termos se tornaram um pouco mais simbólicos e é perfeitamente possível que um pai exerça os cuidados com o bebê, assim como inúmeras crianças contam com outras presenças – masculinas ou não – para fazer a função do terceiro, de quem vai simbolicamente apresentar a sociedade.

Existem – sempre existiram – crianças que vivem sem pai. Homens que jamais conseguiram ou quiseram se apropriar da paternidade.  E há, também, os pais tóxicos, dos quais a criança precisa de distância. Tenho ouvido também, em diversos contextos, muitos relatos sobre pais que, separados das mães dos seus filhos, viram-lhe as costas. Agem como se a responsabilidade fosse condicionada à relação com a mãe deles, como se escolher uma nova vida sem filhos fosse uma possibilidade. Possivelmente o vínculo com o filho, ou melhor, com a paternidade em si, nunca chegou a se consolidar. Resistem a pagar a pensão devida, criticam ou mesmo atacam a imagem da mãe. Fazem pouco, muito pouco pelos filhos mas são admirados por qualquer pequeno gesto, recebem aplausos quando exibem-se com as crias nas redes sociais. Um exemplo é o de uma revista que fez uma matéria sobre o dia dos pais em que homens exibiam suas diversas habilidades e hobbies, esquecendo-se no entanto de incluir os cuidados com os filhos no rol das atividades. Parece que para alguns homens basta ser pai – e participar ainda é desnecessário. Com isso perdem todos: a mãe, sobrecarregada; o filho, privado da presença e suporte do pai; e o próprio homem, que deixa de lado a oportunidade de viver o desafio tão potente que é criar e conviver com um filho.

No outro extremo, têm figurado na mídia com alguma frequência o personagem do “super pai”. Nada novo que homens apareçam como “super”, convenhamos. A novidade é que a paternagem seja incluída entre seus poderes. Pais famosos que, além de participar ativamente da vida dos filhos, cozinharem, costurarem, ainda fundam instituições ou constroem casas de madeira para as crianças. E são muito admirados por isso e até vistos com certa incredulidade. A idealização em torno deles tem sido inclusive muito criticada por quem entende que esses homens não fazem nada além do que seria esperado deles ou, ainda, mais do que a maioria das mães faz todos os dias. Por outro lado, a visibilidade de homens que exercem a paternidade de forma responsável e ativa traz muitos benefícios, já que cria um modelo para tantos outros homens pais.

Por mais que hoje seja muito mais comum ver pais cuidando diretamente dos filhos, sem a presença da mãe, tal ato ainda chama a atenção. Estamos vendo acontecer, muito lentamente, uma transição do “pai que ajuda” – aquele que dá comida quando já está pronta, dá banho e troca a fralda quando a mãe pede e nunca reparou que as unhas das crianças crescem – para o pai que de fato atua, em uma parceria mais igualitária, nos cuidados dos filhos. Porém, pode ser difícil para muitos homens encontrar ou construir este novo lugar da masculinidade. Ao contrário das mulheres que, em geral, foram condicionadas desde a infância a dedicar suas vidas para cuidar dos filhos, muitos homens não têm a referência de cuidado paterno ou masculino, em um exemplo de como o machismo estrutural é também trágico para a constituição dos homens. Muitos não tiveram a oportunidade de serem alimentados, banhados, vestidos por seus próprios pais ou outros homens. E precisam de fato inventar, criar uma forma de paternagem.

Neste sentido é importante que cresçam e se multipliquem os modelos de pais, na “vida real” e na mídia, para que a paternidade ativa, integrada e participativa, cada vez mais, seja uma realidade nas famílias. É, para o homem, uma questão de responsabilidade, mas também de aproveitar uma oportunidade valiosa. Oportunidade de se deixar transformar pela experiência de se tornar pai, de transmitir aos filhos e filhas sua sabedoria, sua linguagem, seu repertório de histórias e brincadeiras. De oferecer a eles referências positivas e diferentes, enriquecendo a vida mental e emocional. Apresentar sua visão de mundo, criando espaço para diálogos. Procurar caminhos, errar, acertar, ter chances de aprender, evoluir. Caminhar e crescer junto ao filho exige coragem, mas é uma coragem da ordem do humano, não super-heróica.

*Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

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