“Mamãe, por que você me escolheu pra gostar de flor?”

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Certo dia estava passeando com minha família na rua. Minha filha, na época com 2 anos e pouco, se abaixava de vez em quando para pegar flores que encontrava caídas na calçada. Já meu filho preferia colher as folhas – verdes, da sua cor preferida. Depois de algum tempo, minha filha, pensativa, me perguntou: “Mamãe, por que você ‘escolheu eu’ pra gostar de flor?”. Essa pergunta me pegou de surpresa. Meu primeiro impulso foi responder que “não, querida, eu não escolhi, você mesma que sempre gostou de flores, desde pequenininha” – afinal de contas, eu nunca havia dito nada aos meus filhos no sentido de determinar suas preferências. Mas me segurei e me dediquei a, como ela, ficar pensativa por alguns momentos. E logo me dei conta de quanta sabedoria tinha a frase daquela menininha. Ela era um pouco mais crescida que um bebê e já tinha percebido como, de fato, suas escolhas, suas preferências são condicionadas pelo ambiente.

Parei para pensar… ela gosta de flores, sim, desde bebê. E desde muito pequenininha me lembro dela, tantas vezes, vestida com roupas floridas. Lembro-me de ter tirado fotos dela rodeada de flores… ou de tê-la chamado carinhosamente de “flor”… e quantas vezes será que fiz o mesmo com meu filho? Poucas, certamente. Ainda que eu acredite e defenda a liberdade de as crianças transitarem livremente pelas brincadeiras, sem estarem aprisionadas a estereótipos de gênero, ainda que faça questão de atentar para os imperativos sexistas do nosso mundo, ainda assim os transmito, conscientemente ou não.

Uma vez assisti a um vídeo que me marcou muito. Era um experimento feito com um bebê e alguns adultos que interagiam com ele. Na primeira etapa o bebê estava vestido de azul, na segunda com roupa cor de rosa. Um adulto por vez entrava na sala e era convidado a brincar com o bebê, sem saber seu sexo. Quando o bebê estava de azul os adultos presumiam que se tratava de um menino e faziam com ele brincadeiras mais ativas, colocavam-no mais frequentemente na posição vertical, suas falas tendiam para a ação. Quando o bebê vestia rosa os adultos viam nele uma menina e brincavam e falavam de maneira mais delicada, suave e ele ficava mais tempo deitado. Recentemente foi divulgado pela BBC um vídeo com uma proposta semelhante, feito com bebês um pouco maiores. Neste, os voluntários afirmavam não terem escolhido as brincadeiras deliberadamente de acordo com o gênero da criança, que a escolha teria sido “inconsciente”. Os estudos sugerem que desde muito cedo as crianças são condicionadas pelas outras pessoas a interações e brincadeiras tipicamente identificadas com seu gênero.

Podemos ir além e perceber como as projeções familiares e sociais começam muito antes, já na gestação ou mesmo na expectativa dela. As projeções moram no desejo dos pais de ter (ou não ter) um filho de determinado gênero, nas expectativas relativas à experiência de ser pai ou mãe de meninas ou meninos. Têm a ver também com questões sociais ou coletivas, como simbolismo ou imaginário que cada cultura tem acerca dos sexos e seus papéis.

Se você é uma mulher que já esteve grávida certamente já percebeu que a primeira pergunta que as pessoas costumam fazer ao ver o barrigão é “e aí, é menino ou menina?” ou mesmo “e então, o que é?” – veja, em geral não se pergunta “quem é” o bebê, mas “o que é”, como se a definição de gênero viesse antes ainda da humanidade da pessoa. Parece ser muito importante saber, assim que possível, qual é o gênero da criança, como se toda a sua identidade estivesse condicionada a ele. Seria a anatomia um destino?

Em uma época em que eu trabalhava em uma UTI Neonatal de uma maternidade, nasceu um bebê que, por conta de uma malformação, tinha os órgãos genitais indefinidos. Até que fosse feito um exame genético, o que levaria vários dias, não seria possível precisar seu sexo. Tive a forte impressão de que esse fato era mais desestabilizante para a família e para a equipe do hospital do que tantas outras patologias muito mais severas que as que lá viam todos os dias. Aquele bebê sem gênero parecia não ter lugar. Cada recém-nascido daquela unidade tinha uma plaquinha – rosa ou azul, de acordo com o sexo – com seu nome escrito. Não havia para ele uma plaquinha de cor neutra, o que é bastante sintomático – bebês já precisam ser encaixados dentro de uma das categorias existentes para poder existir. E sem pertencer a um gênero ele ainda não podia ser nomeado, como se sua identidade ainda estivesse em suspenso.

Hoje os conceitos de gênero já estão menos estanques e podemos ver mais circulação entre as imagens classicamente femininas ou masculinas, mas quem quer que ouse sair do estereótipo e escolher – para si ou para seu filho – uma aparência ou modo de ser sem gênero provavelmente ainda vai encontrar resistência. Outra situação curiosa é sair com um bebê vestido de maneira neutra: as pessoas quase invariavelmente precisam perguntar o sexo do bebê antes de qualquer interação. E se o bebê é menino e está de rosa ou é menina e não usa brincos ou qualquer outro adorno que indique feminilidade, certamente a reação das pessoas será estranheza. Incômodo semelhante pode continuar a acontecer com pessoas adultas transgêneras ou mesmo de aparência andrógina. A indefinição incomoda, confunde.

Quando se tem filhos de gêneros diferentes podemos tirar conclusões empíricas diárias sobre a diferença do tratamento recebido pelo mundo quando se é menino ou menina. As expectativas que recaem sobre as meninas ainda têm muito a ver com traços como docilidade, afetividade, disponibilidade emocional, passividade, habilidades de comunicação e relacionamento; enquanto dos meninos se espera atividade, agressividade, habilidades motoras, inteligência espacial, interesse por esportes. Percebemos claramente como alguns comportamentos são muito mais fortemente reforçados em cada gênero.

As diferenças entre meninos e meninas no imaginário popular ficam bem claras quando entramos em lojas de brinquedos ou mesmo roupas infantis, que são quase sempre completamente delimitadas por gênero, de forma muito caricata. De um lado um corredor cor de rosa, recheado de princesas e toda sorte de faz-de conta baseado na vida doméstica – comidinhas, vassouras, bebês de todos os tipos (quase sempre meninas, a propósito), além de imitações de produtos de beleza. Do outro lado aventuras espaciais e heróicas, transportes, construção, imitações de artefatos bélicos e insinuações de violência. Essas são as imagens vendidas, para que sejam compradas e perpetuadas. Não refletem a essência da masculinidade e da feminilidade, mas antes distorções limitantes desses conceitos (como a passividade fútil ou o heroísmo agressivo), criando e fomentando uma linguagem diferente para cada um dos gêneros, o que acaba por achatá-los e mesmo afastá-los.

Há quem defenda que as preferências das crianças por brincadeiras identificadas com seu gênero são inatas e inclusive propõe explicações evolutivas para tanto. Como por exemplo um estudo que defendia que as mulheres têm de fato uma preferência por tons rosados ,por razões etológicas. Talvez as mulheres de hoje (e digo “de hoje” porque é relativamente recente o conceito de que rosa é cor ‘de menina’) tenham maior preferência pelo rosa do que os homens, estatisticamente falando, mas seria impossível afirmar que essa preferência é inata. Literalmente desde o berço as meninas são, em sua maioria, acostumadas com o rosa. Com as bonecas. E as flores. Por mais desconstruída no campo das questões de gênero que seja a família, desde o nascimento as crianças vão sendo apresentadas aos conceitos culturalmente identificados com o seu gênero de nascimento. E isso não é necessariamente bom ou ruim – porém é importante que tenhamos consciência de como está sendo feita essa introdução.

Brincar é a forma como a criança expressa seu mundo interno, é a linguagem com a qual recria o mundo. Assim, a criança que fica limitada a somente brincadeiras estereotipadas para um gênero pode perder a oportunidade de explorar tantas outras potencialidades do seu ser. Um menino brinca de bonecas hoje pode daqui a algumas décadas cuidar e cozinhar para seus filhos, da mesma forma que as garotas podem brincar de serem cientistas, astronautas ou policiais e seguirem profissões semelhantes – ou simplesmente dirigir seus próprios carros. A identificação com brincadeiras de tipos diferentes não tem a ver, necessariamente, com escolhas objetais ou orientações afetivas futuras, mas com a liberdade de experimentar, explorar e praticar, na fantasia, possibilidades de ser e de fazer.

A questão não é gostar de flores ou de trenzinhos. Características relacionadas a cada gênero provavelmente sempre existirão, sejam elas “naturais” ou “culturais”. O ponto que precisamos cuidar é a liberdade para que todos possamos fazer escolhas ou ter preferências. Para que uma menina não se sinta limitada ou inibida na sua inteligência e, da mesma maneira, um menino não seja tolhido na sua capacidade emocional ou interpessoal.  Para que as pessoas não tenham que, nas suas relações, carregar o peso de serem provedoras materiais ou emocionais; para que tenham liberdade para viver com mais equilíbrio e plenitude as infinitas potencialidades humanas. Feminilidade e masculinidade são potências, cada uma com suas particularidades e que existem em cada um de nós, independente do gênero biológico ou de identificação. Freud em 1926 já havia mencionado que a masculinidade e a feminilidade “puras” existem somente como conceitos teóricos, mas que nas pessoas existe o que ele chamou de “disposição bissexual”. Isso significa que vivemos e celebramos essas dimensões, em cada um de nós, com toda a sua força e fragilidade. Neste sentido a consciência é, como sempre, libertadora, é o que permite que possamos nos conhecer para viver com mais verdade e autonomia as nossas relações e escolhas.

*Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

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