Julgamentos, culpa e a maternidade

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“Ah, essa criança não está com frio? Com calor?” “Mas não acredito que você ainda amamenta!!”  “Como assim você dá mamadeira?” “E esse bebê aí, amarrado no seu corpo com esse pano, não está muito apertado não?” “Cadê a mãe desse menino???” “Não estou te julgando, mas…”; “Mas olha, sem julgamentos!”.

“Não me julguem” “Ei, mas eu não sou menos mãe porque…”  “Julgue menos”…

Se você é mãe provavelmente reconhece algumas dessas frases, ditas em vários contextos diferentes, desde a avó em uma reunião de família ao desconhecido na pracinha, passando por conversas em grupos de mães, presenciais ou virtuais. Em comum, elas refletem como são frequentes os comentários e interferências externas sobre mães e filhos, assim como algumas reações das pessoas que se sentem acuadas com essas interferências, entendidas como julgamentos.

E o que seria, nesse contexto, o “julgar”? Seria o mesmo que opinar? Ou quase o sinônimo de condenar?

No dicionário o termo “julgamento” corresponde a:

1 – Proceder ao exame da causa de.

2 – Decidir (como juiz, árbitro, etc.)
3 – Sentenciar.
4 – Formar juízo acerca de.
5 – Imaginar.
6 – Crer, supor.
7 – Ter na conta de.
8 – Pronunciar sentença.
9 – Formar conceito.
10 – Ser juiz de si mesmo; avaliar-se; crer-se.

Dá pra entender a confusão! Um mesmo termo pode significar desde “imaginar” até “sentenciar”.

Muito tem se falado sobre o “mundo” (entre muitas aspas porque caberia uma investigação sobre que “mundo” é esse de que estamos falando!) estar muito polarizado. Seja na política, seja na forma de cuidar (ou não) da natureza, seja em pequenas e grandes escolhas pessoais, éticas, ideológicas. É comum as pessoas parecem se sentir ofendidas, quase agredidas pelo diferente. E o meio virtual, onde muitas dessas conversas tomam corpo, favorece interações inflamadas, ríspidas. É como se cada um tivesse o direito – ou quase o dever! – de dar a sua opinião sobre aquilo que cai sob seus olhos e ouvidos. Julgamos. Imaginamos. Cremos, supomos. Procedemos ao exame? Poucas vezes, suponho. E talvez este seja um ponto central. O julgamento, muitas vezes, é feito com base em uma única amostra, como uma fotografia. Frequentemente, ao formular um juízo de valor, uma opinião sobre um fato, um ato, acaba-se sentenciando a pessoa por trás dele, como se não houvesse diferença!

E talvez seja mais confortável interagir com uma pessoa após enquadrá-la em categorias já conhecidas. Fica muito difícil, dessa forma, que possa haver abertura para a experiência real do encontro com o outro. “Narciso acha feio o que não é espelho” – verso mais atual do que nunca em uma sociedade cada vez mais refratária para enxergar e escutar o outro, seja esse igual ou diferente. Da mesma forma que não damos crédito algum ao diferente, não somos capazes de questionar o igual, de pensar criticamente sobre seu discurso ou atitudes. Parece ser mais fácil aprovar ou desaprovar o outro do que de fato ouvi-lo ou enxerga-lo dentro de sua potência e limites. Ser ouvido também pode ser uma experiência ameaçadora e frequentemente qualquer discordância ou convite ao questionamento ou problematização pode ser sentido como crítica ou julgamento.

A vida contemporânea pode ser um tanto solitária, muitas vezes precisamos do alento do semelhante, da sensação cômoda e talvez ilusória de pertencimento. Na tentativa de achar pares, buscarmos pessoas com as quais possamos nos identificar (no mais estrito sentido de “ser idêntico”) e encontrar aceitação, respeito, amor. Encontrar espelhos. A fragilidade egóica pode levar a essa necessidade de estar entre iguais, rechaçando o estranho, o diferente, como se fosse um intruso. De qualquer forma, a comunicação e troca humanas ficam diminuídas.

Provavelmente se sentindo acuadas, perseguidas por uma imagem idealizada, impossível de alcançar e portanto opressora, muitas pessoas se sentem realmente invadidas, atacadas por qualquer discordância ou questionamento, preparando uma rápida defesa antes de possibilitar qualquer problematização ou aprofundamento da questão. Acabamos, assim, presos em um superlativo de nossos posicionamentos. Encaixados entre semelhantes. Defendidos, como protegidos de uma facção rival. Dentro de uma “verdade” que é tão forte como é frágil, pois não pode ser ameaçada pela possibilidade de ser questionada – principalmente pelo semelhante.

Além de ser um reflexo do tempo em que vivemos, em que chama a atenção a dificuldade em aceitar as diferenças, as dinâmicas de julgamento e culpa aderem tanto ao universo da maternidade porque na nossa cultura as mães são consideradas as principais responsáveis pela criação das pessoas. Como cuidadores, temos a gigantesca responsabilidade de zelar por pessoas que são dependentes, que são fruto do investimento de toda a sociedade, aqueles com quem todos os outros seres humanos cidadãos conviverão no presente e no futuro.

E é muito pertinente aqui levantar a questão: até que ponto as crianças são “das” famílias ou são seres sociais, imersos na coletividade? Existe alguma localização espaço-temporal para situar limites a partir dos quais é razoável a interferência externa? Poderia uma família dispor da maneira que bem entendesse sobre as crianças que tem sob suas asas? Em que circunstâncias ou idade seriam aceitáveis os tais “julgamentos”?

Espera-se das mães (muito mais do que dos pais, aliás) que “criem” indivíduos adequados para o mundo. Porém, ocorre que a “maternidade” não é uma instância, mas sim uma possibilidade de experiência na vida de pessoas reais. E as pessoas, como sabemos, são diferentes. Em comum temos o fato de sermos, todos, falhos. Imperfeitos.

O ato de julgar alguém implica que há um modelo, ainda que inconsciente. Implica a comparação com esse modelo, a interpretação deste alguém como igual ou diferente desse modelo – que muitas vezes é somente ideal, inexistente na vida real. E tantas vezes a pessoa a quem julgamos e comparamos com esse modelo somos nós mesmos. E é daí que pode vir a culpa.

Diferentemente da responsabilidade, que se baseia em um senso de dever, de compromisso com alguma necessidade que precisa ser cumprida, a culpa parece ter a ver, muito frequentemente, com a comparação de si mesmo, uma pessoa real, com um ideal imaginário. E nessa comparação já saímos perdendo, invariavelmente. Se por um lado essa lacuna entre o ideal e o real pode ser força motriz para a realização, para o esforço no sentido de melhorar, também pode trazer uma enorme dose de angústia, porque frente à perfeição o humano estará, por definição, sempre em falta. E lidar com a própria imperfeição é uma das difíceis tarefas da vida – desde a infância até a vida adulta.

A “culpa materna” tornou-se quase uma instituição, de tão recorrente que é esse tema. Há quem veja que a culpa possa ser até positiva, porque seria um fator importante para que se atentasse para as necessidades do filho. Seria algo como um sinal de alerta do psiquismo materno para o cuidado da cria. Por outro lado, a culpa pode representar um peso sem sentido que se interpõe entre mães, pais e filhos, gerando uma cobrança constante que, em vez de ser produtiva, acaba por criar mecanismos de compensação prejudiciais para todos. Pode ser o caso, por exemplo, das famílias que, por sentirem estar falhando em algum aspecto com os filhos, procuram compensar em outro. Na nossa cultura circula a imagem da mãe abnegada, que se desvela em amor pelos seus filhos e jamais prioriza seus próprios desejos. Essa e uma imagem baseada moralista e que configura um convite à frustração e culpa.

Declinar esse convite exige descolar a própria identidade dessa imagem que é vendida. Entender onde é que toca, em que pontos atinge e porque. No outro extremo, vale pensar, quando nos sentimos tentados a avaliar uma atitude: O que do outro que nos afeta, faz formular julgamento? Por que nos afeta?

Talvez o principal aprendizado que essa pequena consulta ao dicionário possa nos oferecer é justamente o último verbete, que fala sobre “ser juiz de si mesmo; avaliar-se; crer-se”. Penso aqui não em um sentido de atribuir-se mais e mais culpa, mas de olhar para si. De fazer mesmo um exercício reflexivo para procurar encontrar em que questões nossas ressoa aquilo que nos toca no mundo. Como diz a sabedoria pessoal, quando apontamos um dedo para o outro todos os outros apontam para nós mesmos. Se hoje há tantos e tantos dedos apontados o que é que precisamos olhar dentro de nós? Talvez seja este o fator que está entre o “crer, imaginar, opinar” – que parece ser um pouco inevitável, posto que estamos no mundo e inseridos numa cultura um tanto avaliadora – e o “condenar, sentenciar”, que simplesmente não nos cabe.

*Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

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