“Eu te escuto e você me escuta”

Escuta

Você conhece a cena: criança correndo, brincando em algum lugar público e a mãe (ou pai, ou qualquer adulto cuidador) correndo atrás, chamando aos gritos o filho, que não dá a menor importância. Ou então: mãe grita da cozinha para os filhos arrumarem o quarto. E o resultado é o mesmo: nenhuma atitude por parte das crianças. Imagino que já tenha acontecido com você. Certamente já aconteceu comigo.

Recentemente me vi em uma cena dessas, chamando à toa meu filho, que estava muito mais interessado em explorar a praça onde estávamos. Parei, me sentindo frustrada, brava e até um pouco constrangida por estar nessa situação, fazendo esse papel. Fui até meu filho, abaixei-me e olhei nos seus olhos, dizendo algo como “Vamos fazer assim? Eu vou tentar te escutar e você também precisa me escutar. Eu estou tentando falar com você, mas vejo que você está com mais vontade de correr, então não me ouve. Quando eu sinto que não sou escutada fico muito chateada, acabo brigando com você e isso faz mal pra nós dois. Vamos fazer diferente?”. A conversa seguiu mais um pouco e ele pôde também falar que queria brincar, não queria ainda ir embora. A partir daí criamos um combinado entre nós, que chamamos de “eu te escuto e você me escuta”. Foi muito importante, no caso, envolve-lo nesse pacto, trazendo consciência e responsabilidade pela relação. Como ele hoje tem 6 anos, percebo que já consegue entender bem e lidar razoavelmente bem com esses conceitos. Mas essa história não começou aí – ele já tem bem construída a referência de ter sobre si olhos e ouvidos atentos e abertos.

Nunca é muito cedo (nem muito tarde) para começar a escutar o outro – seja esse outro um vizinho ou seu filho. Com bebês recém nascidos já podemos fazer esse movimento de abertura, que é essencial, inclusive, para subjetivizá-lo, torna-lo sujeito de desejos. Perceber quando ele precisa ou quer, por exemplo, ser olhado, alimentado. Ou quando não precisa. No início parece simples, intuitivo. Acostumamo-nos a manejar os cuidados com os filhos, que são por vezes repetitivos, e pode ser fácil acabar em um quase automatismo que não reconhece o outro como indivíduo. O ato de procurar escutar o bebê – e mesmo o de falar diretamente com ele sobre aquilo que diz respeito a ele – o inaugura como interlocutor, como agente da comunicação.

“Escuta” é um termo bem interessante, aliás. Ela, diferentemente do olhar, permite captar as sutilezas da subjetividade de forma mais direta, sem passar tanto pelas lentes dos nossos conceitos, pressupostos ou opiniões. É por isso, também, que muitos psicanalistas preferem se sentar atrás do divã onde se deita o paciente, acreditando que facilita a abertura para ouvir a experiência do outro. A escuta psicanalítica certamente é de uma qualidade muito diferente daquela que fazemos nas outras relações, mas ainda assim vale aprender com esse movimento de abertura, de des-aprender o que achamos que sabemos sobre o outro para ouvi-lo de fato. Porque mesmo com nossos próprios filhos podemos nos surpreender se aceitarmos deixar de lado por alguns instantes as nossas “certezas”.

É muito comum que os pais se sintam inseguros, receando que ouvir os filhos possa significar dar a eles excessiva liberdade ou faltar com a função de oferecer limites, chegando a uma situação insustentável, “anárquica”. Mas vejo que pode existir aí talvez uma confusão. Escutar os filhos não significa atendê-los em todos os seus desejos. Aliás, escutar tem muito mais a ver com estar presente, com se comunicar do que com satisfazer. É muito comum que a criança precise, no fundo, não de mais um brinquedo ou doce, mas do prazer ou atenção que acredita estar relacionada a eles.

Por trás (ou talvez fosse mais preciso dizer “por dentro”) de cada comportamento, de cada pedido que as crianças nos fazem mora uma necessidade. Necessidade de brincar, de correr, de liberdade, de amor, de atenção, de aprovação, de companhia… São inúmeras as possibilidades, tão variadas como as pessoas. Muitas vezes é preciso (como acontece também no contexto clínico, aliás) ler nas entrelinhas. Entender qual é a mensagem cifrada que a criança está transmitindo e o que há de latente – desejos ou necessidades – para ser compreendido.

Frequentemente é impossível atender literalmente àquilo que a criança quer. E nesses casos pode ser importante ir além do literal e procurar compreender seu pedido. Ás vezes pode parecer simples e conseguimos conciliar, encontrando uma forma atendê-la na necessidade que expressa de maneira mais possível ou segura: “bem, estou entendendo que você quer pular desse muro, mas acho muito perigoso, que tal tentarmos deste outro lugar mais baixo?”. É claro que existem muitas escolhas que precisamos fazer pelos filhos, para evitar riscos, para seguir regras e convenções sociais, valores pessoais ou mesmo porque não podemos ou não queremos atende-lo naquele momento. Mas o simples ato de voltar-se a ele, legitimando o que o motiva a expressar o que quer ou precisa, já pode ser transformador.

Em outras ocasiões pode ser mais complexo entender o que de fato a criança precisa e pode ser necessário, além de uma conversa mais longa, acessar nossas próprias emoções. É muito mais fácil estar abertos à conexão real com as necessidades do outro quando também estamos atentos às nossas próprias. Estabelecer um canal de comunicação exige um exercício de auto-observação empática, de olhar e compreender e considerar os próprios sentimentos e experiências.

Vou exemplificar voltando aos exemplos que citei no começo do texto.  Muitas vezes já me aconteceu de eu fazer pedidos ou dar orientações para meus filhos sem me dirigir diretamente a eles. Enquanto cozinhava pedia para que um deles se vestisse, por exemplo. Como não estava dando tanta atenção para essa comunicação eu precisava falar várias vezes, até que acabava me irritando. Ele, por outro lado, continuava entretido nas suas brincadeiras, não chegava a prestar atenção na mensagem e não atendia a meus pedidos. Eu sentia que minha voz acabava desgastada, tanto no sentido concreto como metafórico. Passei a dedicar um tempo para passar a mensagem de outra forma: parava o que estava fazendo e ia até ele, dizendo claramente o que queria, uma vez apenas. Fazia uso desse tempo e energia de maneira muito mais direta e eficiente. Então ele era convocado a me responder, a agir. A negociar comigo, muitas vezes, por que não? Só aprende a escutar quem é escutado.

O que mudou? Mudou a postura, a forma como eu o estava considerando. Faz toda a diferença supor, na criança, um sujeito capaz de escutar e de se fazer ouvir.  E me saber como alguém digna de ser ouvida; uma pessoa cuja voz não soa à toa, como se fosse um fundo sonoro difuso. Faz toda a diferença olhar para cada um de nós. Perceber a nossa relação como merecedora de uma atenção especial.

Vai funcionar toda vez? Provavelmente não. Seguiremos sendo pessoas, humanos e não máquinas para as quais o mesmo procedimento sempre tem como consequência o mesmo resultado. Desafios humanos requerem reflexão e flexibilidade.

Nem sempre é fácil colocarmo-nos à disposição para ouvir. É claro que há momentos em que é mais fácil render-se ao automático. Tem momentos em que estamos bastante indisponíveis, por qualquer motivo que seja, para fazer uma escuta de qualidade. Quando não consigo ouvir meus filhos prefiro deixar isso bem claro, aliás. Quero que sintam que aquilo que têm pra dizer merece atenção e prefiro que saibam que, se naquela hora não posso dar atenção, em breve poderei. É importante que percebam quando estão sendo de fato escutados. E talvez estes momentos de indisponibilidade sejam importantes também, porque são oportunidades para aprendizados sobre como lidar com a realidade. Que nos tornam capazes de esperar, de entender as disponibilidades do mundo. Se há um desejo-necessidade que posso expressar aqui é justamente o de que as crianças aprendam, com a nossa própria humanidade, a lidar com sentimentos e experiências hhumanas.

* Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

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