A importância de “duvidar de si mesmo”

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Ouvimos muito falar sobre a importância de “acreditar em si mesmo”. Em conselhos de amigos, discursos motivacionais, frases de incentivo…: “Vai dar certo! Acredite em si mesmo!”. Em geral bem intencionadas, em muitos contextos e situações essas frases podem ser oportunas e benéficas. Mas tenho pensado e hoje gostaria de compartilhar uma ideia quase oposta: sim, a de “duvidar” de si mesmo.

Desde a infância é muito comum que incorporemos imagens ou papéis. Quase máscaras, que aderem tão fortemente à pele que a confundimos com o nosso “si mesmo”. Para ser aceita a criança se baseia em suas percepções acerca das expectativas do mundo – sobretudo a família, no início – sobre si. Essas percepções podem se basear em sinais muito sutis e muitas vezes inconscientes dos cuidadores.  Pode por exemplo começar com uma palavra, ou comentários como “Mas como você é bagunceiro!”, “Ah, mas você só gosta mesmo de comer isso, como é fresco!”; “nossa, que criança egoísta, nunca empresta seus brinquedos!”. Talvez possa vir até como um elogio: “Como esse menino é corajoso, não chora quando se machuca!” “Você parece uma princesa, tão comportada!”. Faz parte do papel de pais e cuidadores oferecer os próprios valores para as crianças, assim como apontar atributos. Porém, quando repetidas algumas vezes, essas frases podem tomar contornos de regra, quase de lei, vinculando esses traços à auto-imagem da criança, que acaba se identificando com o que lhe é atribuído. Ter uma identidade ou mesmo um papel, ainda que aparentemente este não seja positivo, pode ser reconfortante, pode significar ter um lugar de reconhecimento, um status individual. Pode trazer a sensação de ser aceito, de ser amado.

“Sou alguém. Sou importante. Sou”.

O problema é que, na medida em que não são inteiramente verdadeiras, essas máscaras podem ser aprisionantes.  Para manter esse lugar é muito comum que procuremos seguir os mandatos que nos são oferecidos, que se comportam quase como profecias. Agir de acordo com essa imagem, confirmando sua identidade, pode se tornar uma resposta fácil, pronta, de certa forma segura.  O verdadeiro “eu” pode ficar encoberto, escondido debaixo dessa máscara, na linha do que Winnicott chamou de “falso self”. Protegido de tantos riscos, mas também de viver a vida com mais integralidade.

Fechar uma imagem pronta sobre si mesmo e sobre o outro nos “cega” para ver aquilo que escapa a essa imagem. Se entendemos uma criança como malcomportada, por exemplo, é possível que deixemos escapar despercebidas muitas ocasiões em que seu comportamento é diferente. Assim, fica reforçado cada vez mais o papel negativo e não percebemos as brechas por onde sair desse padrão. Da mesma forma, se alguém vê a si mesmo como alguém que tem pouca habilidade social, por exemplo, é provável que não dê a si mesmo muitas chances de provar o contrário – ou até mesmo de fazer esforços para mudar o que incomoda.

Desconfiar desses mandatos, da própria imagem estabelecida pode ser libertador. O “não saber”, neste contexto pode ter muito valor, porque representa um espaço a ser preenchido. É um “será que…?” que pode ser muito melhor do que uma presunção de verdade reducionista. A dúvida traz questionamentos, traz a busca por outras verdades – e inclusive a descoberta de que não existe uma única verdade, mas que ela é relativa e construída.

A busca pela consciência e conhecimento real de si mesmo implica um movimento de abertura. De se ver como ser em transformação, que não se mantém constante, mas que é mutável de acordo com o tempo e a vida. Isso exige, sem dúvida, coragem para deixar de lado padrões cômodos. A compensação é a descoberta da beleza de se surpreender consigo mesmo. Em tempos em que os algoritmos parecem somente permitir a unidimensionalidade de ser, isso parece ser ainda mais importante.

Para aqueles que criam crianças, é fundamental essa busca constante pela consciência de si – que é talvez a única maneira de  criar abertura para a real consciência sobre o outro. Em termos práticos, uma saída possível para dificultar a cristalização de padrões de comportamento é evitar rotular a criança por suas características. Os elogios – que têm grande importância quando são sinceros e verdadeiros – podem, por exemplo ser dirigidos aos comportamentos, preferencialmente: “ Percebi que você arrumou todo o seu quarto, veja como ele ficou mais agradável”; “Foi muito legal da sua parte ajudar seu amigo”; da mesma forma, às críticas podem ser dirigidas às atitudes, desvinculando-as da criança em sua essência: “Fiquei chateado por você ter falado comigo desta forma”. “Desta vez você não conseguiu fazer sua lição, da próxima vez pode ser diferente”.

Dessa forma podemos ajudar as crianças a perceber que as possibilidades de ser são inúmeras e facilitar que elas possam se envolver no processo de se construir como sujeitos – e não objetos – da própria vida.

*Elisa Motta Iungano, mãe e psicóloga

 

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