“Essa criança está só querendo chamar a atenção”

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Você já ouviu a frase acima? Eu já ouvi. Muitas vezes, provavelmente sempre dita por um adulto que, ao ver um comportamento de uma criança, o reduz à sua interpretação de que a criança só está tentando chamar a atenção, de forma manipulativa. Geralmente em uma situação em que a criança, da forma que consegue, tem alguma atitude indesejada, como uma “birra” ou mesmo alguma brincadeira considerada inadequada ou irritante. E o “tratamento” dado à criança que “só” quer atenção em geral é a indiferença ou o embate.

Entendo o incômodo dos adultos, as crianças muitas vezes conseguem encontrar meios de se fazer presentes de forma quase onipresente. Mas essa frase, a interpretação da qual ela decorre e sobretudo a forma que os adultos que a dizem tem de lidar com a situação me chamam a atenção, me saltam aos olhos e ouvidos de forma que não consigo ignorar.

Vamos por partes para compreender melhor?

“Essa criança”: Criança, uma pessoa, um sujeito em desenvolvimento, que ainda não conta com maturidade para expressar seus sentimentos e necessidades. Que precisa do olhar e da aprovação dos pais e cuidadores, embora às vezes os busque de maneiras que os grandes já não entendem. Um indivíduo que pulsa em sua necessidade de trocar amor, que entende presença como afeto. Que está, ainda, em uma fase bastante egocêntrica, em que se crê – e em certa medida precisa ser – o centro do próprio mundo e dos adultos de referência. E isso, de forma alguma, significa que seja manipuladora – esse é um recurso muito elaborado, do qual a criança pequena ainda não dispõe.

“Só”: Essa é a ‘melhor’ palavra da frase, aquela que traduz sua essência de redução do comportamento da criança em questão. “Só”, como se a necessidade de atenção fosse algo banal, desimportante. Sim, é possível que ela esteja agindo assim para chamar a atenção. Mas isso não é, e nem nunca pode ser, diminuído com um “só”. Isso seria negar e mesmo negligenciar a natureza infantil em sua essência.

“Está querendo”: E aqui temos a beleza do querer, do desejar. Que, com crianças, sobretudo as pequeninas, é muito, muito próximo ao necessitar. O bebê quando nasce é um ser de necessidades, todas elas urgentes, todas elas vitais. Conforme vai crescendo torna-se mais complexo e nasce o desejo. A criança começa a ser senhor de suas vontades, que dizem respeito não somente a sua sobrevivência física e psíquica, mas a seu estatuto de sujeito desejante, de humano. Pode ser, no entanto, que ela leve um tempo para entender que os desejos podem esperar e que, eventualmente, são frustrados. A criança vive exclusivamente no tempo presente, ainda não tem a noção de que seguirá sobrevivendo mesmo não sendo atendida prontamente. Precisa ser assistida nesse aprendizado e pode sofrer até que ele se consolide. Sim, é uma fase longa e que requer paciência inclusive dos adultos. Tenha certeza, se não é fácil para você também não é para seu pequeno.

“Chamar a atenção”: Chegamos ao ponto principal e isso de forma alguma fecha essa reflexão, somente a abre mais. Existem inúmeros motivos pelos quais uma criança pode querer ou precisar de atenção, diversas pessoas a quem podem estar recorrendo e também uma infinidade de maneiras como pode fazer isso. Seja como for, atenção, para criança, é estrutural. Ela precisa de atenção para sobreviver, acostumou-se, desde bebê, a exigir aquilo que precisa. Seu pedido é legítimo, muito embora nem sempre possa ser atendido prontamente.

Aprendemos socialmente que querer chamar a atenção é condenável, mas por outro lado vivemos em um mundo em que impera o narcisismo e egocentrismo, e pedidos enviesados por todo tipo de atenção – positiva e negativa. Nós adultos também não nos sentimos tantas vezes desamparados, precisando de apoio, de atenção?

Na tentativa de querer extinguir o comportamento indesejado da criança muitas vezes alguns adultos tendem a ignorá-la, esperando que ela perceba que não está agradando e pare com o que está fazendo, contentando-se em não ganhar a atenção que pede. Pode até ser que em alguns casos essa estratégia funcione, que a criança desista e recolha seu manifesto. Mas a tendência é que necessidades não satisfeitas retornem. E quando não encontram uma via de expressão direta podem ser convertidas para outras formas de expressão mais primitivas, como a corporal. Pode ser também que o comportamento em questão se repita, se acentue, em uma tentativa de enfim ser notado.

Há saídas além de reforçar o comportamento que a criança escolheu como forma de se manifestar. O importante é dedicar alguma energia para ver um pouco além, tentar escutar qual é a necessidade que a criança está expressando. Oferecer meios para que ela possa satisfazer, ainda que em outros momentos, essa necessidade. Muitas vezes a criança pequena ainda não consegue expressar verbalmente aquilo que sente e pode precisar de suporte para conseguir dar conta do que está vivendo. Pode ser através de histórias, desenhos, brincadeiras. Pode ser, simplesmente, através de alguns momentos extra de olhar para si. A criança que é atendida, que tem suas necessidades legitimadas, tende a se sentir segura, a ter recursos para esperar quando não pode ser atendida imediatamente. E pode também aprender que existem formas mais positivas de pedir e conseguir a presença dos seus adultos.

Sim, uma criança pode “estar querendo” “chamar a atenção”, mas isso não é “só”. É “tudo” isso, é realmente muita coisa.

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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