A maternidade como ponto de virada do feminismo

We can do it baby

O dia Internacional das mulheres vem como uma oportunidade para olhar para os nossos papéis, enquanto mulheres, nas nossas vidas públicas e particulares. Aproveito para pensar sobre o feminismo e como ele vem se encaixar na vida de cada uma de nós hoje. O tema está sendo muito falado e até explorado pela mídia. Mas para além de um tema ‘da moda’, sinto que o feminismo é uma visão de mundo. Talvez a libertação de um véu com o qual nos acostumamos a ver a vida desde sempre, mas não nos damos conta das distorções que ele provoca na visão.

Algumas mulheres já conseguem ter essa percepção desde sempre, mesmo na infância, estranhando o que é estranho, não se habituando às desigualdades. Para outras há em algum momento um ponto de virada. Pode ser através de um livro, uma amiga, uma relação abusiva, uma situação de trabalho.

Para mim esse ponto de virada foi a maternidade. Foi este o caminho que me fez enxergar a vida e as relações com novos olhos. Foi o que me trouxe potência, me fez viver a feminilidade em plenitude. Encontrei-me pela primeira vez com toda a minha força. Uma força desconhecida, porque não era do masculino, pelo contrário. Conheci a potência feminina em pessoa.

Por muito tempo aceitei a imagem da mulher-cor de rosa, sem perceber o quanto ela tinha de imposição. Ao longo da maior parte da minha existência enquanto mulher não fui capaz de perceber a opressão que recai sobre nós, ainda que submetida a ela diariamente. Provavelmente isso aconteceu justamente porque eu havia incorporado muito bem os mandatos que me foram oferecidos desde o nascimento: Fui uma menina boazinha, amável, aprendi a fazer-me frágil, menos competente. Como tantas, aprendi a passar por cima dos meus desejos. A não incomodar. A aceitar invasões de diversos tipos – do “tio” que passa a mão no seu cabelo na infância ao outro que resolve tomar conta do seu corpo. Levou uma passada de mão na rua? Releve, não vale a pena reclamar, pode ser perigoso. E também… quem foi que mandou usar essa saia tão curta?

Sendo o único modo que conhecemos de viver nos conformamos, nos acostumamos. Achava que as mulheres tínhamos já conquistado um espaço satisfatório na sociedade. Que o feminismo era de certa forma anacrônico. Afina, já podemos trabalhar, votar, ter independência. Do que mais reclamam essas feministas? Sem conhecer de fato no que consiste o feminismo, não acreditava entendia sua busca pela equiparação de direitos entre os gêneros. Comprei a ideia de que ele representava uma negação do feminino, a anulação da diferença, quase como uma não-aceitação da condição de ser mulher. Por ter, sem nem perceber, me acomodado ao machismo, não sentia a necessidade do feminismo.

Então vieram os filhos. E veio a maternidade, o que parece ser sinônimo de ter filhos, mas não é. Homens também tem filhos, mas o papel social do pai é completamente diferente do da mãe. Fui entender, de fato, a minha posição enquanto mulher nesse mundo quando assumi esse novo papel, que se configurou quase como uma nova identidade.

Com poucas semanas de gravidez perdi uma oportunidade profissional, o que é absolutamente corriqueiro nos relatos de mães. Tive que fazer escolhas que não foram, de forma alguma, apresentadas ao pai dos meus filhos é à maioria dos pais que conheço. Vi meu corpo se transformar e, mais do que nunca, se tornar objeto de olhares, toques, palpites e julgamentos – positivos ou negativos.  Vi-me exposta naquilo que há de mais íntimo, senti que precisava me explicar sobre meu parto, a amamentação e alimentação dos meus filhos. Aprendi a não mais me calar – e aguentar as consequências de tamanha ousadia.Ter filhos e ser a principal cuidadora significa, entre outras coisas, exercitar de forma inescapável a cidadania. Lidar com vizinhos, parentes, profissionais, mediar as relações das crianças com o entorno. Percebi que as expectativas sobre meus cuidados eram – e seguem sendo – extremamente altas, enquanto meu marido se tornou exemplo de bom pai por simplesmente fazer seu papel.  Ficou escancarada, a diferença, a enorme diferença, entre ser homem ou mulher no nosso mundo. Se não era óbvia até esse momento, agora não dava pra não ver. E isso sem falar nos desafios específicos de criar meninos e meninas, que nos jogam na cara diariamente que ainda temos pela frente uma longa jornada.

Mais um aspecto interessante: O outro lado da moeda da imagem feminina, que é o da mulher-maravilha, se fez presente, mais do que nunca. Sabe aquela história de a gente ter que dar conta de trabalho, casa, marido, supermercado, crianças e suas 1001 demandas, e tudo isso de salto alto? Então. Essa imagem pode ser tão sedutora quanto a da mocinha romântica. E, sendo imagens estereotipadas, são igualmente falsas.

A percepção da diferença, dos entraves, dos desafios de ser mãe me trouxeram a certeza de a feminilidade precisar ser, ainda, um lugar de resistência. Resistência é rejeitar ser a boazinha que aceita tudo – sejam os sapos a engolir, seja a totalidade das fraldas a trocar. Resistir é não aceitar o julgamento do mundo porque você resolveu ser mãe e trabalhar – ou não trabalhar. É não aceitar aplausos somente para o pai. É não pretender dar conta de tudo. Muito menos de salto alto. É respeitar e fazer respeitar seu corpo, sua identidade, seus desejos. Seus filhos. É fazer valer sua voz. É não abrir mão do seu lugar do mundo.

Passei a respeitar muito mais as mulheres que resolvem não ter filhos. E, ainda mais, as que os têm, porque sei o tamanho do desafio que isso representa – e os cuidados com a criança são a parte fácil, acredite. Conheci também, a energia da união feminina e me nutro dela todos os dias.

Sim, ainda precisamos do feminismo, enquanto abertura do campo de visão e busca incessante de igualdade de direitos. Nem sexo frágil, nem mulher-maravilha. Mas sim potência feminina, pra se concretizar no que desejarmos.

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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