Adultice

2014-03 Elisa Marcelo e Dudu esperando a Clara-002

Tenho uma doença chamada adultice. É um mal muito comum na nossa sociedade, aliás. Tem causas genéticas e ambientais e, desconfio, também pode ser contagioso. De início insidioso, vai se instalando lentamente e quando percebemos já estamos acometidos, acreditando que a doença faz parte de nós indissociavelmente. Costuma começar na adolescência mas tenho percebido seu estabelecimento cada vez mais cedo. Já temos inúmeras crianças adoecidas.

Seus sintomas são muito abrangentes. De modo geral desencadeia a objetividade, funcionalidade, previsibilidade e a seriedade – e justamente um dos principais problemas é a forma , como esses sintomas se confundem com valores como a responsabilidade. Ela também causa cegueira, quando por exemplo me impede de ver as belezas que meus filhos procuram me mostrar, como uma brincadeira de bolinhas de sabão. Causa confusão mental, nos fazendo acreditar que chegar na hora certa é mais importante do que observar as flores pelo caminho. Traz medos e preocupações que às vezes chegam a se sobrepôr ao desejo de aprender e de viver. Causa problemas de memória severos, nos fazendo esquecer o que de fato é importante na vida, a essência do que fomos um dia. Muitos pacientes relatam não ter recordações da própria infância e inclusive desenvolvem intolerância para aquilo que chamam de “criancice”. Podem chegar ao extremo de esquecer como brincar. Pode trazer irritação, depressão, mau humor, impaciência. Altera a visão de mundo e a percepção espaço-temporal. Seus portadores podem, por exemplo, enxergar sofás onde crianças vêem naves espaciais, mesas em vez de cabanas, lixo onde há sucata pronta para ser transformada em uma infinidade de invenções. É comum também o aprisionamento no passado ou a hipervivência do futuro.

Percebo que em algumas situações a adultice parece se agravar. Cansaço, desorganização, excesso de atribuições, falta de tempo ou dificuldades financeiras são circunstâncias propícias para a instalação de fases agudas da doença. Em dias mais críticos me pego preferindo lavar a louça em vez de ler uma história. Ou ver somente bagunça onde outros enxergam a mais fina arte. Em outros dias percebo que minha adultice dá uma trégua e consigo respirar, sentir, sem me sentir dominada por meus pensamentos ou necessidade de controle e planejamento. Nesses dias encontro mais conexão com meus filhos e, para minha surpresa, eles se mostram até mais colaborativos. Uma vez consegui parar para observar o grande esforço da minha filha, com poucos meses, para alcançar um paninho à sua frente. Como era grande aquele esforço dela e como foi grande o meu esforço para me dar conta de que eu não precisava ajuda-la, muito pelo contrário.

Infelizmente não há remédio certeiro para a adultice. É uma doença crônica e não existe cura completa. Para algumas pessoas a velhice abranda alguns sintomas, embora outros possam ser acentuados.

Mas a boa notícia é que existem alguns tratamentos possíveis que tem tido bons resultados. O contato com crianças é o principal deles. Se há boa vontade do paciente, elas podem fazer voltar, ainda que esporadicamente, a capacidade de fruir o momento presente, a alegria. Ajudar a sair da ótica do “útil”. Lembrar aquilo que foi esquecido, de que o sentido da vida está no caminho e não na meta final. Para isso precisamos nos permitir entrar no seu ritmo, o que pode requerer fazer somente uma coisa de cada vez. Parar para observar uma folha caindo, formigas andando, para descobrir um buraco misterioso na parede, para uma troca de palavras com um desconhecido simpático na rua.

Algumas histórias e músicas também podem ter bons efeitos terapêuticos, assim como o contato com a natureza ou animais. Percebemos que há uma boa melhora do quadro quando o adulto volta a ser capaz de brincar, ainda que de brincadeiras “de gente grande”.

Outro bom sinal é quando é capaz de reconhecer sua criança interna, aquele que foi um dia e que ainda está viva em algum lugar dentro de si. Conseguir olhar para essa criança, integrá-la ao nosso ser pode trazer força e, principalmente, felicidade. É como disse Milton Nascimento, que certamente tem sido importante na descoberta de pequenos antídotos para a adultice: “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão…” Que possamos sempre cuidar das nossas crianças internas e nos lembrar das coisas bonitas que eu acredito que nunca deixarão de existir.

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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