Datas festivas e comemorações escolares

 

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A escola é um dos principais espaços que cumprem, juntamente com a família, a função de aculturação das crianças. A maior parte das pessoas passa grande parte da sua infância em instituições que fazem este papel de transmitir, além de informações, também os signos e costumes que são próprios de cada sociedade. Conceitos como alimentação, sociabilização, conceitos sobre relações familiares e modos de viver o tempo são aprendidos na prática. E também lá são, frequentemente, praticadas celebrações variadas, tais como aniversários, mudanças de estação, datas festivas ou religiosas, passagens de ciclos, etc.

A forma como cada cultura realiza suas celebrações reflete bastante sobre sua compreensão acerca do sentido da mesma. É interessante perceber como, ainda que existam práticas comuns, cada família ou instituição faz suas próprias leituras dos ritos, subjetivizando-os. Essas práticas respondem também à passagem do tempo e mudanças culturais.

Algumas décadas atrás, por exemplo, a sociedade se encontrava em outro estado e os questionamentos sobre suas próprias práticas ainda não eram tão abrangentes ou aprofundados. As discussões sobre o lugar social de cada segmento social ainda eram mais incipientes. As responsabilidades éticas das escolas em relação aos alunos também eram entendidas de outra maneira. Por exemplo, era considerado razoável vender alimentos de baixo teor nutricional nas cantinas, assim como praticar todo tipo de publicidade infantil. O mesmo valia para as festas, que reproduziam valores como consumismo irrefletido.

Há alguns dias foi comemorado o dia do índio no Brasil. É importante comentar que essa data não é validada ou celebrada entre as populações indígenas. Ou seja, é uma comemoração realizada a partir do olhar do brasileiro descendente de europeus-colonizadores. Ora, pouco adianta discutir, no ensino fundamental, sobre as heranças deixadas pela exploração portuguesa desde a época do “descobrimento” se essa reflexão é deixada de lado nos primeiros tempos de educação escolar. Embora ainda vejamos algumas escolas que se esquivam dessa discussão, hoje já vemos crescendo um movimento bastante frutífero de conscientização. Quando eu era criança a comemoração-padrão nas escolas era a pintura facial “indígena” (aqueles dois risquinhos em cada bochecha), aliada a uma faixa com pena na cabeça. A tal ‘fantasia de índio’. E, possivelmente, ainda se cantava a música da Xuxa (“Vamos brincar de índio/mas sem mocinho/pra me pegar” – Quem não se lembra?). E qual é o problema de se fazer uma festa assim, lúdica e divertida, para as crianças? O problema está justamente na apropriação que se faz de signos que não são da nossa cultura, somente nessa data, como se essa brincadeira de alguma forma aproximasse minimamente as crianças brancas da vivência indígena, como se permitisse alguma compreensão do que é viver como pertencente a essa população. O reducionismo do ser “índio” a essa imagem achatada e estéril é outra questão. Existem, ainda, centenas de diferentes culturas indígenas, com linguagens, vestimentas e hábitos completamente diversos. Fazer uma amálgama simplificadora, sem maior esclarecimento sobre a realidade desses povos e oferecer para as crianças como uma inocente “brincadeira” é desperdiçar a chance de ampliar seu repertório cultural e humanista. Realizar uma comemoração vazia ou, pior, que pode fomentar a ignorância e preconceito nos alunos. Em compensação, vejo algumas escolas aproveitando essa e outras oportunidades para expandir o universo cultural das crianças e – por que não? – suas famílias e comunidades. Trazendo um pouco de conhecimento sobre a cultura indígena, mas tendo clareza de que esse conhecimento é, ainda, segmentado e limitado. E, com a consciência de que a produção de conhecimento tem uma esfera ética, também inserindo as crianças em algum tipo de engajamento social responsável.

E dentro de poucos dias teremos o dia das mães, que é um capítulo à parte na experiência escolar. Da mesma forma que acontece com as comemorações do dia do índio, ainda há muitas escolas que se recusam a rever e transformar suas práticas. No entanto, muitas já se propõem a olhar para o que essas comemorações podem ter de opressoras. Sim, claro, todas as mães gostam de receber carinhos e homenagens – afinal de contas merecemos, não merecemos? Sim, claro. Mas olhando um pouco além podemos perceber que não são todas as crianças que têm o privilégio de contar com uma mãe em sua vida. E pode ser que vivam muito bem assim, com outros adultos de referência amados. Porém, quando se faz uma celebração e uma homenagem, dentro do espaço escolar (que é uma referência social importantíssima), esse lugar da criança “sem mãe” se torna instantaneamente um lugar de falta. E se há uma, uma única criança que pode ser prejudicada, fragilizada, entristecida, oprimida por não ter uma mamãe viva, presente – e de preferência disponível a comparecer às festinhas, essa prática precisa ser revista. Sim, uma única criança que poderia sofrer é suficiente para mudar todo o protocolo da celebração. E isso nos ensina muito sobre empatia, alteridade e acolhimento. Conceitos que dificilmente conseguimos transmitir para as crianças se não os experienciamos pessoalmente.

Ela nos obriga a abrir o olhar para o conceito de família, que está mudando, reconhecer que as referências que pontuaram nossas próprias infâncias já não são as mesmas e que deixar de acompanhar o mundo é também fechar o campo de escuta, de comunicação. Muitas escolas vêm adotando as comemorações de “Dia da família”, o que indica que estão absorvendo essas transformações.

Da mesma forma, as festas religiosas precisam ser olhadas com especial atenção, pois com as comemorações transmitimos uma visão de mundo, que pode ser incompatível com a das famílias com quem a escola faz a parceria de educação de suas crianças. Evidentemente, nem sempre as visões vão coincidir integralmente, mas é importante, nesses casos, mostrar que as experiências são relativas. É uma boa oportunidade, inclusive, para abordar as diferenças e aceitação. Também os aniversários podem ser festejados como um momento de homenagear a vida de um companheiro, aproveitando ideias e iniciativas das próprias crianças ou como pretexto para consumo compulsivo de doces e presentes.

Comemoremos, então, porque sempre há motivos e porque compartilhar afetos ajuda a significar a vida. Mas que as celebrações possam ser plena de sentido, refletindo os valores que acreditamos que devem ser perpetuados. E, muito importante, não se esquivando da nossa responsabilidade ética enquanto educadores.

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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