“Feliz dia, mamãe!” – Pela felicidade materna

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Mais uma vez chega o dia das mães. Aquela data que não conseguimos deixar de lembrar, até porque a mídia nos inunda de lembretes e imagens. Quase sempre de famílias radiantes, presenteando suas lindas mamães com tudo aquilo que possa ser comprado. O viés comercial dessa data não pode passar despercebido e muitas vezes parece ser inclusive a sua essência. Mas também pode ser uma oportunidade interessante para olhar para o tema que comemoramos

Sabemos que a maternidade abarca uma multiplicidade de sentidos, mas ainda assim as imagens tradicionalmente atribuídas a ela são bastante restritas. Dizem respeito à representação social da figura da mãe: bondosa, amorosa, abnegada. Que se satisfaz com pouco no dia a dia, mas uma vez por ano merece ganhar alguma extravagância como recompensa – de multiprocessadores a sapatos. Chega a ser afetada a forma como é mostrada a valorização dessa personagem da mãe. Ao menos por quem quer vender as tais recompensas, é claro.

A única questão é que essa personagem é na verdade uma pessoa. Ou, melhor dizendo, milhões de pessoas que, em comum, têm essencialmente o fato de terem parido ou adotado seus filhos. E como se sentem essas pessoas? O que podemos ouvir, se dermos voz a elas, como forma de homenagem alternativa aos cartões ou colheres de pau?

Atrevo-me a tentar começar a responder. Ouvindo muitas mães, em diferentes contextos, me deparo com muito amor e dedicação, de fato. Mães que se desdobram para atender às necessidades dos filhos, muitas vezes colocando-as acima das suas ou mesmo se esquecendo dos seus desejos. Mas a beleza dessa doação toda que já estamos tão acostumados a ver tem seu lado B. Vejo, por exemplo, se multiplicarem relatos e apelos sobre a desvalorização, a solidão e a sobrecarga maternas. Muitas e muitas mulheres se identificam com essas experiências, que são somente algumas facetas possíveis da vida pós-filhos.

A mulher-mãe que dá conta de tudo sozinha com um sorriso no rosto é uma lenda, tão real quanto o papai Noel e o príncipe encantado. Imagino que se os contos de fadas se prolongassem para além do casamento, veríamos que as princesas seriam, no capítulo seguinte, mães e esposas ultraeficientes, padecendo felizes para sempre no paraíso. Essas histórias todas, aliás, têm algo em comum: são fantasias fomentadas culturalmente, inclusive pela mídia, e que se perpetuam porque de alguma forma engancham em anseios comuns a muitas pessoas. Mas veja: no caso da mulher-que-dá-conta-de-tudo-sozinha não estamos falando de um desejo por algo ou alguém que queremos ter. É bem mais complexo do que isso: é a ilusão de que poderíamos SER essa pessoa. Essa fantasia fala de um ego ideal onipotente, que perseguimos inutilmente. Que pode ser também um tanto sedutora, já que alude a uma imagem que de certa forma reflete aquilo que supostamente gostaríamos de ver em nós mesmas, alimentando o narcisismo. E que, sim, é reforçada pela cultura e muito frequentemente pelo entorno social.

Tudo tem um custo, e o custo de acreditar nesse devaneio e de fato tentar dar conta de tudo sozinha é muito alto. A sobrecarga é um dos caminhos óbvios e que pode facilmente levar a conflitos familiares. Muitas mulheres hoje estão começando a se dar conta da absurda posição em que se colocaram e demandando mais participação ativa dos homens na criação dos filhos. Mas ainda precisam lidar com cobranças externas e internas e com a famosa culpa.

A solidão é outra inimiga da felicidade materna contemporânea. Muito frequentemente isoladas, sobretudo nas grandes cidades, as mães recentes lidam com o desafio de tentar dar conta dos filhos, com pouco apoio ou companhia adulta. Porque os bebês, por mais fofinhos e cheirosos que sejam, não são exatamente uma companhia e é humano sentir falta de pares, seja para bater papo, trocar confidências ou dar uma mão nas inúmeras tarefas diárias. Se a opção foi parar de trabalhar essa dinâmica pode se estender indefinidamente. Apesar de a figura da mãe ser tão incensada, ainda não há, na nossa sociedade, o cuidado para que as pessoas por trás dessa figura sejam bem atendidas em suas necessidades.

Mas afinal estamos aqui para falar sobre a felicidade materna. Voltando à imagem da mãe ideal, podemos pensar que tantas mulheres inteligentes caem nessa pegadinha? Talvez porque ela traga um tanto de verdade. Jogam com a ideia de que uma mãe feliz faz uma família feliz, o que tem algum fundamento. Porém, trazem junto a premissa absolutamente falsa de que a família feliz seria suficiente para manter a felicidade da mãe. O que subentende que as mães seriam seres simples, que aceitariam viver “por tabela”, nutrindo-se dos sorrisos dos filhos. Esse modelo de vida não pode em hipótese alguma ser considerado o fim do caminho, o pote no fim do arco-íris. Afinal, a maternidade não é um produto, mas um dos caminhos possíveis pela vida. E atribuir aos filhos a responsabilidade pela felicidade da mãe é um equívoco um tanto perigoso.

Concluindo, faço aqui um pedido. Se você é mãe, tome um tempo para pensar: como você tem se sentido? Onde anda sua felicidade? O que dizem os seus desejos? Como você pode se comprometer com eles, a fim de que seus sorrisos sejam verdadeiros?

E se você não é: o que você faz de fato pela felicidade das mães – não somente a sua própria ou a dos seus filhos, mas de todas, enquanto segmento social? Como pode você se comprometer para que as felicitações de dia das mães sejam autênticas e plenas de sentido?

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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