Crianças, política e transmissão de valores

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Política, entendida como um conceito amplo, é algo que se faz na vida prática. As crianças são muito astutas e capazes de se construir como sujeitos de fazer político desde os primeiros passos. A criança que vive no mundo, que acompanha seus pais em seus fazeres sociais e profissionais, que convive com coletivos, com pessoas diferentes, com desejos, necessidades e recursos diversos, está sendo inserida em um mundo que é essencialmente político. Ao aprender a compartilhar seus brinquedos com o irmão, por exemplo, ou ao ser incluída no processo de decisões simples da família, está sendo apresentada a formas de organização, que podem ser mais ou menos democráticas ou autoritárias. Aprende, sem cerimônias, a gritar alto por aquilo que acredita ser seu direito. E desenvolve bem cedo uma noção muito particular de justiça – em geral muito autocentrada, é verdade, mas que passa por uma percepção dos privilégios atribuídos a si a e aos outros. Experimente dar um pedaço de bolo maior para um dos filhos para comprovar!

A infância é uma época também marcada pelo aprendizado de conceitos de público e privado, pela percepção de diferenças sociais, em que se aprende sobre papéis e responsabilidades, formula conceitos sobre ética e respeito. O aprendizado de como se posicionar na sociedade, desde a família, são os primeiros ensaios da vida política. Surpreendentemente, é absolutamente incomum ver as necessidades e demandas das crianças representadas na vida coletiva e política, embora recentemente estejam surgindo algumas propostas sensíveis e inovadoras. Inclusive algumas candidatas incluem seus filhos na sua vida eleitoral, o que tem grande importância para mostrar ao mundo que é possível viver a vida pública e cuidar da família.

Em tempos de eleição esse tema é muito falado nas casas, mídia, ruas e inevitavelmente os pequenos acabam por se inteirar das conversas. Através dos pais, principalmente, ouvem opiniões, acompanham seu posicionamento, vão de alguma forma se inserindo no mundo através do que apreendem. A política pode participar da vida das crianças e vice-versa. Mas a participação deles nas discussões sobre eleições pode não ser tão simples. E, considerando o clima de polarização e animosidade que se instalou, a situação merece um pouco de atenção, porque o entendimento deles é diferente daquele do adulto. Eles chegaram a um mundo que já estava formado, com papéis bem estabelecidos e pode ser complexo explicar todo o histórico envolvido na situação atual.

A maior parte das crianças brinca muito de mocinhos e bandidos. Adoram histórias e brincadeiras que envolvam disputas entre os “do bem e os “do mal”. Bruxas e princesas, polícia e ladrão, monstros,.. Às vezes algum personagem aparece disfarçado, como o lobo que se finge de cordeiro. Mas fica bastante claro, para os personagens e para o leitor, que a dissimulação é absolutamente consciente e que “na verdade” o malvado é inteiramente cruel. Não há camadas, não há nuances, sobretudo nas versões mais conhecidas dos contos infantis.

Na infância essa distinção clara entre o bem e o mal tem grande importância. As crianças, sobretudo as pequenas, ainda não têm maturidade emocional para dar conta de toda a complexidade e pluridimensionalidade da vida psíquica. A vida fica mais clara, mais compreensível se se pode categorizá-la. Existe uma função psíquica importante em organizar as experiências: no início da vida o ego e a noção de si ainda são incipientes; é preciso manter “dentro” aquilo que é sentido como bom, jogando para fora aquilo que se rejeita. Então a criança se identifica com as pessoas, vivências e também os personagens que considera positivos.  E projeta todo o mal – sentimentos que ainda não pode reconhecer ou integrar como parte do seu ser – em entidades externas. Então é comum o lobo mau ser depositário de todo o medo que há no seu mundo interno, por exemplo. É também a fase de testar possibilidade de ser, ensaiar a experiência de viver o herói e também o vilão – mas, quase sempre, essas dimensões aparecem de forma alternadas, bastante cindidas, já que ainda são inconciliáveis.

Nós, adultos, também temos os nossos personagens, nossos objetos de identificação, a partir dos quais também vamos, ainda e sempre, nos construindo como sujeitos. Mesmo já tendo crescido, ainda muitas vezes pegamos emprestadas essas identificações, até como forma de encontrar pares, de sentir pertencimento.

O tema da política é bastante complexo, mesmo para adultos. Diferente dos contos de fadas, não existe transparência, não existe clareza, os atributos não são absolutos, as intenções são complexas, muitas vezes incoerentes, cheias de conflitos e nem sempre conscientes. Ainda assim vemos crescer uma tendência muito parecida com o maniqueísmo que já havíamos deixado para trás. A polarização que domina o mundo e as relações, transportada para a vida adulta, parece tão sem sentido quanto danosa. Sim, somos seres humanos, sujeitos de histórias muito diferentes, conceitos formados, camada após camada, por toda uma vida, e  que na maior parte das vezes refletem conteúdos dos quais nem ao menos temos consciência. Mas, ainda assim, a forma como cada um defende sua “verdade”, para isso chegando a desumanizar o outro, detentor de uma verdade diferente da sua, é algo que impressiona.

Tomei conhecimento de um grupo de crianças que havia colado a foto de um candidato à presidência na parede e que brincavam de cuspir nele. No caso era um candidato que notoriamente defende ideias fascistas, o que pode tornar por um lado compreensível o sentimento de oposição. Mas as crianças em questão ainda não tinham idade para ter entendimento ou maturidade sobre o tema, o que tornava o gesto vazio em conteúdo. Outras brincam de atirar em outros candidatos, incentivadas por seus pais, que fazem inclusive festas de aniversário temáticas sobre o mesmo candidato que gera tanta discórdia. Ainda que, por razões justificadas, tal candidato desperte a ira e o medo, as crianças estão aprendendo a construir seus conceitos. Por ainda não terem recursos  ou conhecimento para tirar suas próprias conclusões, acabam aderindo a essas opiniões por identificação (ou, em outros casos, por revolta) a seus adultos de referência. De qualquer forma, apelar para o maniqueísmo das fantasias da infância para recrutar eleitores parece uma estratégia – política e educacional –insuficiente. Da mesma forma que queremos que nossos filhos tenham posturas autônomas, chegando a suas conclusões a partir de um processo de conhecimento e análise dos fatos, na política não é diferente. Uma criança que adere fielmente a um projeto como se  fosse um time de futebol não está passando pelo processo de pensamento autônomo que é necessário para a tomada de decisões firmes e fundamentadas.

Transmitir valores é indispensável – e, talvez, a nossa principal tarefa como formadores de cidadãos. Mas, assim como com tantos outros temas, a urgência de ver nossos filhos fazendo boas escolhas não pode se sobrepor ao respeito ao seu tempo, seu ritmo e confiança na capacidade de pensar. E, mais importante, é sempre importante lembrar que cidadania se faz no “entre”, o que passa por aprender a escuta, respeito, empatia.

*ElisaMotta Iungano, mãe e psicóloga

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