Criando o mundo nos primeiros tempos de vida

DSC00154

 

Nós, pais, achamos que criamos nossos filhos. À nossa imagem e semelhança, de preferência. E que, assim sendo, podemos deliberar sobre as formas que achamos melhores e mais convenientes para fazê-lo. Lemos, aprendemos, ouvimos conselhos e palpites. “1001 maneiras de criar seu filho”. As crias, as crianças.

Peço licença agora para subverter essa ideia.

A criação das crianças pelos adultos é uma parte da história. O outro lado é que são eles que nos criam. Desde que nascem e mesmo antes vêm nos transformando, mudando nosso corpo, nossa rotina, prioridades e, se permitirmos, também nosso olhar, nossa escuta. Então seguimos juntos esse caminho de criação que é coletiva.

Chamo a atenção, aqui, para o conceito de criatividade trazido pelo pediatra e psicanalista inglês Donald W. Winnicott, que viveu entre 1896 e 1971 e revolucionou a forma de ver e entender as crianças e, sobretudo, os bebês. Foi ele que atentou para o fato de que os bebês não existem sozinhos e, portanto, precisam ser olhados e ouvidos em conjunto com o seu ambiente. Quando nascem vivem em condição de dependência absoluta dos cuidados maternos (que, ainda que sejam exercidos por outra pessoa, simbolicamente fazem parte do que se entende como “função materna”). Conforme crescem, se são cuidados em um ambiente favorável, vão adquirindo habilidades e recursos para que sua dependência do ambiente se torne cada vez mais relativa.

O ambiente, portanto, é de extrema importância para que o ser humano possa, no início da sua vida, contar com a segurança e estabilidade que o permitem desfrutar da experiência fundamental da continuidade de ser. Considerando que nos primeiros tempos de vida o bebê ainda não tem recursos para discernir entre o “eu” e o “não-eu”, contar com os cuidados afetivos de uma pessoa devotada a ele é absolutamente constituinte, no sentido de imprescindível para sua constituição.  Quebras na continuidade de ser do sujeito-bebê podem leva-lo ao que se chamou de “angústias impensáveis”.

O autor também percebeu que as mães, para exercer sua função, passam por aquilo que ele chamou de “preocupação materna primária”. Esse estado as levaria a um estado de identificação com o bebê, permitindo desenvolver mais facilmente a conexão com o bebê e suas necessidades. Assim, os cuidados maternos são, por definição, substancialmente intuitivos, sobretudo no início, e interferências externas muitas vezes podem interromper o fluxo de comunicação entre a mãe saudável e seu bebê.

Outro ponto interessante e que diz respeito diretamente ao tema que me trouxe aqui é o da criatividade no sentido de “ilusão criativa”. O bebê, ao nascer, não é capaz ainda de se perceber como um ente separado do mundo, ou seja, dos cuidados maternos. Dentro do seu psiquismo ele “cria” o mundo, de acordo com suas necessidades. Então, por exemplo, se sente fome, ele, em seu entender, faz surgir o seio, que vem para preencher exatamente as suas necessidades. Essa ilusão é extremamente importante, pois é o que funda sua capacidade de se relacionar com o mundo e com o outro. Essa capacidade de “criar” é inata ao ser humano, mas necessita de um adulto que, como ego auxiliar, se proponha a sustentar essa ilusão, até que o bebê possa prescindir dela. Ou seja, idealmente, o objeto desejado pelo recém nascido deveria surgir no momento em que é imaginado por ele, nem antes, o que poderia representar uma experiência invasiva; nem depois, pois provocaria um momento de falta. 

Estamos aqui falando, portanto, de um ser que conta com um psiquismo incipiente, ainda muito frágil e suscetível, que necessita de apoio maciço dos cuidados primários, com um impulso muito particular para a vida e as relações. É uma imagem muito diferente daquele que vemos, tantas vezes, repetida em falas e mesmo literaturas sobre a natureza infantil, que vê a criança como um pequeno ser que necessita ser domado, adestrado, para se encaixar no nosso mundo. É comum, por exemplo, que as mães sejam orientadas por parentes, amigas e mesmo profissionais a deixar seu bebê chorando para que “aprenda” a dormir sozinho. Ou que a amamentação seja oferecida somente em horários determinados, sem conexão com a necessidade ou demanda do bebê. Nesta idade os desejos ainda correspondem a necessidades primárias e é importante para a constituição emocional que o bebê se perceba como criador das resoluções para suas necessidades. Em um aparente paradoxo, para que o bebê no futuro conquiste mais autonomia, nos primeiros tempos precisa de um cuidado altamente adaptado.

Isso não significa, claro, que os bebês não podem ser deixados sozinhos ou que serão prejudicados por qualquer frustração ou choro. Sabemos que os bebês contam com alguma resiliência, ou seja, são capazes de sobreviver a falhas, e progressivamente essa capacidade é expandida. Então o convite que faço aqui não é de acrescentar mais sobrecarga ou preocupação para os cuidadores, mas chamar a atenção para o fato de que é na primeira infância que encontramos as matrizes emocionais de grande parte das experiências que enfrentaremos durante a vida. Então é fundamental que sustentemos, para o bebê, este olhar de atenção e escuta para seus apelos, com sensibilidade para sua necessidade de ser sujeito da sua criação e da criação do seu mundo.

 

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s