“Pra mim chega”? – Lidando com crianças e a pandemia

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Dia desses vesti meu bebê com um body onde se lia a frase: “Pra mim chega! Vou para a casa da vovó!”. Meu primeiro filho ganhou esse body da minha mãe, vários anos atrás, em outro contexto, completamente diferente. O que era, naquela época, apenas uma frase divertida, quase me fez chorar hoje. Era um tempo em que era possível dizer “para mim chega”. E era possível partir pra escola, pro parquinho, pra casa da vovó. Naquele tempo era absolutamente impensável uma situação em que não pudéssemos contar com os recursos e escapes aos quais já nos habituamos. Nada como a terra redonda para dar voltar inimagináveis, não é mesmo?

Participo de grupos de mães há cerca de uma década, vendo trocas de informações, experiências, desabafos, muitas dicas e escuta. Entre as queixas maternas mais comuns, o cansaço e sobrecarga. Entre os conselhos mais comuns: Peça ajuda, busque sua rede de apoio. “Não tenha vergonha de precisar de ajuda com as crianças ou a casa”. “Não se cria um filho sozinha”. E a frase de ouro: “É preciso uma aldeia para criar uma criança”. Mas… e agora? Quando todos os recursos aos quais nos acostumamos foram indefinidamente suspensos, mas a sobrecarga está ainda maior? O que fazer quando não podemos contar com instituições como escola, família estendida, aulas de esportes, línguas, pracinha ou turma do prédio? Nos casos de mães (ou pais) solo, a situação pode ficar muito mais complicada.

Por um lado, sentimos saudades de quem está longe, por outro, resta-nos a convivência ininterrupta com a família nuclear, supostamente as pessoas por quem temos mais amor, mas, ainda assim, outras pessoas.

Engana-se quem pensa que se cansar e precisar e um tempo dos filhos é um defeito ou falha nas capacidades maternas. Na verdade, é bastante natural e saudável que precisemos do nosso espaço, dos nossos temas, do nosso barulho ou nosso silêncio. E surpresa ainda maior: Nossas crianças também podem precisar de um tempo longe de nós! Sim, ainda mais quando estamos, inevitavelmente, em um estado crescente de tensão acumulada, e muito possivelmente descontando parte das nossas frustrações nas relações mais próximas.

Sabemos que as crianças nos “usam” como suporte para seus processos emocionais. É constituinte que eles precisem dos pais como alvo de projeções e sentimentos de toda ordem. Estarmos lá, presentes, mostrando a constância e infalibilidade do nosso amor é muito importante! Mas, para crianças um pouquinho maiores, também é muito importante viver a não-presença dos pais. Experimentar a própria existência longe das asas maternas, aprender sobre ausências, idas e vindas, treinar o convívio social longe do olhar dos pais também é essencial.

Desde que começou a quarentena o tema das crianças é frequente, mas, paradoxalmente, pouco se tem escrito realmente sobre as necessidades dela. Geralmente as publicações tratam mais sobre “o que fazer com as crianças”. Então, logo na primeira semana de confinamento, viralizaram tabelas de horários e atividades a serem feitas, no afã de criar rotina. De, talvez, controlar algo para dar conta da angústia do desconhecido. Sem nem mesmo termos tempo para respirar, chorar e entender a nova vida, precisamos lidar com centenas de sugestões de cursos online, práticas artísticas, filmes, etc. A expectativa de superprodutividade chegou até aos bem pequenos. Havia um buraco a ser preenchido com urgência. O que fazer com aquelas pessoas ali, esperando ser alimentadas, entretidas, ensinadas?

Nos lugares e períodos em que o isolamento foi total, muitas regras para saída de casa foram estipuladas. Caminhadas com o cachorro, por exemplo, sempre foram permitidas, em consideração às necessidades dos animais. Práticas esportivas individuais em lugares como praias também foram abertas, para prover as necessidades de exercício físico dos adultos. As crianças, por outro lado, não foram em nenhum momento consideradas como cidadãs, e menos ainda dentro de suas particularidades de sua fase de vida. Li vários relatos de mães impedidas de entrar em comércios essenciais com os filhos, apesar de não ter com quem deixá-los. Ao mesmo tempo em que é esperado que as crianças se comportem como mini-adultos, assistindo quietas às suas aulas online, sem fazer barulho para não atrapalhar os vizinhos, foram subtraídas de seus direitos, mais esquecidas que os animais.

A preocupação com as crianças fica reservada, aparentemente, às famílias e profissionais que lidam com a infância (e que vêm se desdobrando para reinventar seus fazeres). Na ausência de uma política pública para a infância na pandemia que vá além do fechamento das escolas e distribuição de cestas básicas, grande parte das famílias não tem onde buscar abrigo. Saindo do recorte classe média – média alta, que pode, aos trancos e barrancos, acumular os papéis de cuidadores em tempo integral, professores e trabalhadores, a situação se torna ainda mais crítica. Qualquer discussão sobre os rumos do ano escolar deve necessariamente considerar que as realidades do país são absolutamente heterogêneas.. Para muitas famílias vindas de uma realidade sócio-economica menos favorecida, nunca foi possível praticar qualquer tipo de isolamento social. Sem a escola, inclusive, muitos problemas, como a alimentação, se agravaram. E, conforme mais segmentos comerciais vão voltando à ativa, são essas crianças, filhas dos trabalhadores, que acabam ficando mais desamparadas. É difícil explicar, aliás, porque bares e cabeleireiros  são considerados prioritários em relação a escolas, nesse sentido.

Na discussão em torno da abertura ou não das escolas o foco parece ser sobre a necessidade de deixa-las cuidadas para que os adultos possam trabalhar. Ou ainda sobre capacidade de transmissão viral das crianças; Aliás, a preocupação parece ser maior em relação ao quanto eles podem trazer risco aos adultos, e não quanto à sua própria segurança (apesar de algumas centenas de crianças terem morrido no Brasil do covid). Mais uma vez, e não me refiro aqui somente ao período da pandemia, as necessidades e demandas das crianças são colocadas em segundo plano.

O que me leva ao ponto principal: como tem se sentido as nossas crianças? Esse período de pandemia, ao se prolongar além do que esperávamos incialmente, varreu para longe, para um futuro incerto, grande parte dos referenciais das crianças.

Minha filha se refere à quarentena como “infinitena”. Nada pode ser mais preciso do que isso, sobretudo para pessoas que têm a natureza de viver o presente, no tempo e espaço concreto do aqui e agora. Se no início tínhamos a esperança de passar poucas semanas confinados, agora precisamos nos acostumar a ouvir que a realidade que enfrentamos, por mais aterrorizante que seja, é o “novo normal”. Crianças precisam de normalidade, de fato, precisam sentir a segurança da previsibilidade, o contorno. Penso que esse contorno, nesse momento, vai tomando novas formas. Talvez, em vez de pré-desenhadas, que é o que nos habituamos a fazer, essas formas possam ser mais dinâmicas, fluídas. Baseadas mais na capacidade empática dos cuidadores. Mais do que nunca, talvez, as crianças percebem que seu entorno não é tão firme quanto antes e precisam de escuta e acolhimento. Da mesma forma, precisam de espaço para poderem se expressar, como uma folha em branco para desenhar. Para isso, é fundamental que tenham tempo de ócio, até mesmo de tédio, que é, frequentemente, berço para as melhores ideias criativas ou para que possam emergir conteúdos importantes. Precisamos, enquanto adultos, encontrar recursos para dar conta das nossas angústias, mas também não conseguimos sozinhos. Está tudo bem sentirmos tristeza, medo, raiva. Está tudo bem permitirmos que nossos filhos percebam que temos sentimentos e, inclusive, é assim que eles vão também apreender as possibilidades de enfrentamento desses problemas.

Se, por ora, não é possível simplesmente dizer “pra mim chega” e deixar, concretamente, nossas casas, podemos, aos menos simbolicamente, criar frestas em seja possível viver nossas individualidades, brechas para que as crianças sejam não somente filhos e irmãos, mas outros papéis, em outras relações, reais ou inventados. Esses escapes também podem criar mais qualidade nos momentos compartilhados. Alguns exemplos que consigo imaginar (ou reproduzir do que vejo por aqui e por aí) são: construir cabanas ou esconderijos secretos, onde somente podem entrar pessoas autorizadas; escrever diários, brincadeiras por vídeo com amigos, além de, se possível, contar com alguma privacidade para assistir às aulas online. Para crianças menores, em que a questão ainda não é a supervivência da vida familiar, talvez sejam interessantes experiências como olhar pela janela, ver fotos e vídeos antigos, que permitam fazer pontes com momentos já vividos em outros contextos, ou mesmo um passeio de carro para ver a rua. Gostaria também de ouvir o que outras famílias têm inventado!

É importante lembrar que temos nas mãos uma oportunidade de conviver com nossos filhos que não se repetirá. Como podemos cuidar das memórias que teremos dessa fase única? Que histórias contaremos aos pequenos, com quais lembranças vamos nos emocionar ou rir juntos futuramente? Não se trata de romantizar a quarentena ou negar a realidade, à moda do filme “A vida é bela”, mas de, talvez, aprender com as crianças a se deixar conduzir um pouco pelas riquezas do nosso mundo interno.

Em tempo: você já perguntou ao seu filho qual é a melhor coisa da quarentena? Talvez você possa se surpreender com as respostas! Aqui o mais velho se referiu justamente à possibilidade de estar mais no conforto do lar. A do meio fica muito contente em poder assistir às aulas de pijama. E o pequeno, apesar de não ter tanta consciência do que poderia estar vivendo fora de casa, com certeza também tem se beneficiado da companhia mais constante do pai e dos irmãos.

  • Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista de crianças

2 comentários em ““Pra mim chega”? – Lidando com crianças e a pandemia

  1. Muito legal o texto Elisa! ❤ Aqui em casa fizemos algumas festas onde o meninos podiam ser outros personagens. Cada um vestiu o personagem que queria e fizemos um desfile de apresentação. Foi um a delícia! =)

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