Integrando a nova vida no puerpério

O bebê chegou! Estão todos em festa, querendo conhecer, saudar e cuidar da nova vida. Que seja bem vindo, que tenha luz, que seja abençoado. Presentes, fotos, amor. No começo costuma ser uma avalanche de visitas. Depois, a vida para os amigos e os parentes vai voltando ao normal.  

E para a mãe?  

Para essa a vida não volta ao normal. Ou ao menos não para o normal ao qual ela estava acostumada, que conhecia como sua vida. Talvez para um “novo normal”, para usar um termo bastante atual.  

Tudo muda. O corpo muda, de repente, ganhando um vazio. Os braços, por sua vez, cheios.

            Quando nasceu meu primeiro filho eu tinha a expectativa de que ele seria um bebê conforme a representação social que temos de um recém nascido. Aquele bebê que dorme a maior parte do tempo no berço, acordando para mamar a cada 3 horas. Não me falaram, ou eu não pude ouvir, sobre o puerpério não imaginava a mudança que estaria por vir. O tamanho assustador da dependência, e a necessidade visceral que ele teria do meu calor.

No começo eu esperava que ele dormisse para que eu pudesse almoçar, por exemplo, e tinha a expectativa de que ele dormisse no seu berço ou carrinho. Ao perceber que ele dormia muito melhor junto comigo, comecei a deixá-lo sempre no meu colo ou na minha cama, mas tinha a sensação de que aquilo não seria certo, vozes dentro e fora de mim me levavam a acreditar que eu precisava acostumar meu filho recém-nascido a ficar longe do meu corpo por algum tempo. Levou poucos dias para desconstruir esses conceitos e deixar de dar ouvido a essas vozes. Deixei falar a voz que vinha das novas pessoas que haviam acabado de  nascer: Meu bebê e eu mesma.

 Ouso dizer que quando eu percebi e aceitei que a vida tinha mudado de vez, e que esse era um caminho sem volta, algo se encaixou. Parei de esperar que meu filho dormisse para então eu poder me alimentar. Passei a me alimentar junto com ele, enquanto ele se alimentava de mim. Dormíamos juntos e por mais alguns meses ele seguiu morando em mim, no colo, no peito, no sling.

Integrar a minha nova existência passou por entender que a gestação tinha acabado, mas que ainda não estávamos separados. A percepção mais valiosa, talvez, foi que não somente meu bebê não era capaz de fazer essa separação, mas eu também não. Eu ainda precisava estar junto com ele, fisicamente inclusive, mas não só. Respirando o mesmo ar, vivendo no mesmo tempo-sem-tempo, no mesmo ritmo que não se regulava por relógio ou por número de voltas na terra, mas por uma pulsação que era só nossa. Enquanto eu estava ali, vazando leite, sangue e lágrimas, meu maior mestre foi meu filho.  

Não foi uma época sem desafios, é claro. Foram necessários aprendizados de grande complexidade, desde os cuidados com o bebê até lidar com as novas relações com o mundo. Não é fácil deixar o entorno assistir nos virarmos do avesso, colocando para o lado de fora o que há de mais íntimo, precioso e ao mesmo tempo sombrio no nosso ser. 

Cada pessoa tem sua história, e mulheres de todas as espécies vivem puerpérios desde sempre, mas essa fase costuma ser uma fase de mergulho no desconhecido. De partir-se toda para depois construir outra figura. De outono, de deixar cair as folhas, os cabelos, as certezas. De viver em outra órbita, de girar em torno de outro eixo.

Além da tempestade hormonal e das mudanças na rotina, há uma reviravolta na identidade e lugar de ser na família e no mundo que pode não ser fácil. Nenhuma transformação importante acontece sem doer. O corpo, arrisco a dizer, é o que menos muda nesse processo.

Para mim, o que possibilitou viver e crescer com essa fase foi aceitar esse convite, me deixar transformar e virar do avesso, enfrentar o medo e, na medida do possível, deixar de tentar me segurar nos resquícios da vida antiga.

E para você? Comente aqui como foi ou está sendo seu puerpério e quais são os recursos que te auxiliam nessa caminhada!

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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