As crianças, o ócio e o papel alumínio

Em mais um dia de quarentena, minha filha, brincando de bonecas, quis que uma fosse a rainha, mas não achava uma coroa. Parecia um assunto importante para ela.

Sugeri fazermos uma de papel alumínio. A ideia rendeu mais do que o esperado! Ela ficou muito contente de ter feito sua coroa! O mais velho quis fazer uma técnica japonesa que leu em algum lugar para polir uma bola de papel alumínio, deixando-a bem lisa. E o mais novo achou muito interessante explorar aquele material novo.

Um objeto simples, que sempre esteve guardado na gaveta da cozinha, acabou servindo para atividades criativas, que exigiram coordenação motora, articulação de conhecimentos, busca de técnicas e materiais, além de muita conversa e comunicação.
(Muito melhor do que os brinquedos que prometem o desenvolvimentos de inúmeras habilidades, mas na verdade só requerem apertar botões!). Objetos servem apenas como auxiliares para tornar concretas as brincadeiras e fantasias que já são reais no imaginário da criança. Esse suporte pode ser simples. Aliás, quanto mais simples melhor, pois dá mais espaço à imaginação.

Agora imaginem se, a cada momento de ócio, a resposta fosse sempre recorrer a televisão ou jogos eletrônicos? Esses recursos podem ser válidos em muitos momentos, mas precisamos cuidar para não tampar todos os buracos com a saída mais fácil.

O tédio, para as crianças, muitas vezes é um caminho necessário para a construção de atividades criativas e inovadoras. Muitas vezes meus filhos ficam aborrecidos quando digo que não podem assistir TV. Tudo bem, eu banco esses sentimentos, a braveza, a chateação, e sei que eles dão conta. E quase sempre, após alguns minutos de cara feia, vejo que se engajaram em alguma brincadeira ou produção muito incentiva e divertida. É só uma questão de tempo. O criar exige tempo. É

O ócio permite o contato com outra pessoa ou mesmo com eles mesmos. Exige uma escavação do próprio repertório, assimilação dos últimos aprendizados e busca de novos. Tem a chance de tentar, de errar de tentar outra vez.

Afinal, não é por acaso que a palavra “criança” tem a mesma origem da palavra “criar”!

*Elisa Motta Iungano, mãe, psicóloga e psicanalista

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