Histórias de Natal, fantasias, verdades e mentiras

Chegando a época de festas, muitas famílias precisam lidar com as histórias que a permeiam. Entre crenças religiosas e o apelo ao consumismo existe uma infinidade de possibilidades de viver o Natal e transmiti-lo às crianças. Não há resposta certa ou errada, cada família constrói seus rituais de acordo com o que faz sentido para si.
Um dilema clássico é sobre a narrativa dos presentes de Natal e o papai Noel.
Para mim faz sentido não alimentar essa lenda, mas também não “cortar o barato”. Por um lado, vejo a importância da fantasia e da magia. Por outro, a desnecessidade de uma história inventada e que fomenta o consumismo, quando temos, na origem das comemorações natalinas, outra história (que sinto muito mais verdadeira) que traz mensagens que conectam com valores mais profundos. Assim, Papai Noel aparece aqui como uma figura folclórica. Verdadeiro, como são as fantasias infantis, mas tão concreto como o saci ou sereias.
Houve um ano em que meu filho me perguntou se Papai Noel existia de verdade. Respondi que algumas pessoas acreditavam que sim, outras que não. A resposta foi suficiente e o satisfez. Ele respondeu: “ah, então eu acredito”. Fez a escolha correspondente às suas possibilidades e necessidades daquele momento. No ano seguinte o tema retornou, mas dessa vez respostas abertas não foram suficientes. Ele não queria saber sobre o simbolismo da figura. Também não ficou satisfeito em ouvir sobre São Nicolau e como ele pode ter sido o precursor daquele que conhecemos como papai Noel. Ele queria saber a verdade. Cresceu, amadureceu e o pensamento fantasioso estava dando origem à investigação concreta, científica da realidade. Queria saber quem comprou os seus presentes nos Natais anteriores – uma pergunta objetiva. Tivemos uma longa e verdadeira conversa. Uma desilusão que foi sentida, mas que também representou o respeito a seu desejo e à sua condição de criança crescente e preocupada com o mundo do jeito que é.

Nem sempre uma não-verdade é uma mentira ou engano. Muitas vezes pode corresponder a uma visão de mundo diferente. Descobrimos, ao crescer, que a vida tem muitas nuances e que a verdade frequentemente é subjetiva.
Talvez possamos pensar na ideia de “construções conjuntas”. Também nós não “acreditamos” que ao Natal pertencem comidas pesadas e decorações que remetem ao clima e vegetação nórdicas? Quanto dos nossos hábitos também não são importados e vem constituir uma realidade que não é somente objetiva, nem subjetiva, mas compartilhada em um espaço da experiência compartilhada? E não costuramos nossas crenças de acordo com pequenos retalhos que adotamos aqui e ali?
Com essas conversas com meu filho tivemos dois aprendizados importantes: A importância do conforto morno da fantasia e a coragem de abandonar uma ilusão da qual já se desconfia. Intuo que esses aprendizados ainda serão reeditados algumas vezes ao longo da vida dele – e, ainda, também da minha própria.

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